O Castelo Animado
Uma chapeleira de 18 anos esbarra na rua com um belo mago que voa e, no caminho de casa, é transformada por uma velha bruxa ciumenta em uma idosa de 90 anos: para quebrar a maldição, ela se infiltra em um estranho castelo com quatro pernas de galinha que anda sozinho pelas montanhas. Resumo completo da história de O Castelo Animado, a animação de fantasia de Hayao Miyazaki de 2004 baseada no romance homônimo de Diana Wynne Jones, do primeiro encontro, em que ela é encurralada por dois soldados num beco e um desconhecido a pega pelo braço e a leva voando sobre todos os telhados, até o final, em que o coração de fogo enfim volta ao dono, debaixo das bombas
Título
O Castelo Animado
ハウルの動く城
Também conhecido como: O Castelo Andante (Portugal)
Ano / Duração
2004 · 119 minutos
Gênero
Animação / Fantasia / Aventura / Romance
Direção
Hayao Miyazaki
Roteiro
Hayao Miyazaki
Avaliação
Elenco
Chieko Baishō, Takuya Kimura, Akihiro Miwa, Tatsuya Gashûin, Ryûnosuke Kamiki
Obra original
Baseado no romance de 1986 da escritora britânica Diana Wynne Jones, Howl's Moving Castle
Prêmios
Oscar 2006: indicado a Melhor Filme de Animação; Festival de Veneza 2005: Osella de Ouro por conquista técnica
O Castelo Animado é o filme de 2004 de Hayao Miyazaki, baseado no romance homônimo de 1986 da grande autora britânica de fantasia Diana Wynne Jones. É o trabalho em que Miyazaki dedicou três anos inteiros depois do enorme sucesso internacional de A Viagem de Chihiro (2001), e também o filme visualmente mais complexo, o de maior duração e o que reuniu a maior equipe de animadores da história do Studio Ghibli.
O filme inteiro tem um núcleo antiguerra muito claro: a história se passa em um reino fictício sem nome, de ambientação europeia do fim do século XIX, que trava com o reino vizinho uma guerra que parece “não ser nada”. Todas as bombas, toda a magia e todos os slogans de “lealdade ao rei e amor à pátria” que aparecem no filme são a mensagem que Miyazaki escreveu para as crianças do século XXI: era 2003, e os Estados Unidos tinham acabado de invadir o Iraque.
Sophie
A história começa na manhã de um dia de outono, em uma velha chapelaria de uma cidade de estilo europeu.
Sophie Hatter (com a voz de Chieko Baishō), de 18 anos, é a filha mais velha da família dona da chapelaria. O pai morreu quando ela era pequena, e ela ocupou o lugar da mãe para continuar fazendo e vendendo chapéus na loja.
Sophie é a personagem que menos se parece com uma “protagonista típica de Miyazaki”: não é bonita (o filme a mostra várias vezes diante do espelho, dizendo que é muito comum), não gosta de aventura (o trabalho de todo dia é costurar chapéus na loja) e não é romântica (é mais madura que as duas irmãs).
Naquele dia, na hora do almoço, Sophie arruma a loja e sai para visitar a irmã Lettie, que trabalha em uma padaria. Dois soldados a barram em uma esquina e, vendo que ela está sozinha, começam a assediá-la com palavras.
Sophie recua tremendo. Nesse momento, um homem de casaco preto comprido e cabelos dourados, com um sorriso que parece ter estrelas nos olhos, vem andando do outro lado do beco. Ele sorri para os soldados e diz: “Desculpem, amigos, esta é a minha namorada, nós tínhamos combinado de nos encontrar”. Com naturalidade, pega Sophie pelo braço e segue em frente, deixando os dois soldados para trás.
Ao sair da rua, o belo desconhecido sorri para Sophie e pede que ela não fique nervosa: é ele quem eles estão perseguindo. No céu, várias bruxas de túnica preta e chapéu pontudo passam voando entre os telhados, atrás dele. Ele diz a Sophie que se agarre a ele.
Um segundo depois, o homem sobe aos ares com Sophie, em um voo elegante como uma dança que atravessa todos os telhados da cidade: os dois passam sobre chaminés e campanários e pousam suavemente na varanda da chapelaria de Sophie. Ele diz a ela que entre em casa, que descanse, e então simplesmente desaparece.

A Bruxa do Deserto
Aquele homem é Howl (com a voz de Takuya Kimura), o protagonista do filme: um mago independente conhecido em todo o reino, com menos de 25 anos, de uma beleza quase excessiva, capaz de fazer magia e de se transformar em um pássaro preto parecido com um corvo, e perseguido há anos por todas as bruxas do reino.
A maior inimiga de Howl é a Bruxa do Deserto. Essa velha feiticeira amou, há mais de 50 anos, o mestre de Howl; já envelheceu há muito tempo, mas ainda assim não deixa Howl em paz, e seus subordinados o procuram por toda parte.
Naquela noite, Sophie está sozinha fechando a chapelaria. A porta se abre e entra uma velha tão gorda que quase não passa pela porta, com um chapéu exagerado e coberta de joias. Ela diz a Sophie que soube que hoje ela esteve com Howl.
Sophie pergunta quem ela é. A velha sorri com maldade, estende um dedo até a testa de Sophie e pronuncia um feitiço. Num instante, Sophie passa de 18 para 90 anos: o cabelo fica branco, a pele se enche de rugas e as costas se curvam a ponto de ela mal conseguir ficar de pé.
A velha diz que esse é o preço de andar com Howl e manda Sophie ir se olhar no espelho em casa; diz também que ela não pode contar o feitiço a ninguém, porque, se contar, morrerá na hora. Depois sai da chapelaria muito satisfeita.
Sophie passa a noite inteira acordada na loja. Na manhã seguinte, sem dizer nada, deixa apenas um bilhete sobre a mesa, põe uma mochila pequena nas costas e sai sozinha da chapelaria, rumo ao deserto que cerca a cidade.
O castelo animado
Sophie caminha pelo deserto. Ela não pode contar a ninguém que foi amaldiçoada, então só pode procurar alguém que talvez saiba como quebrar o feitiço: a própria Bruxa do Deserto que a amaldiçoou.
Pelo caminho, ela encontra à beira da estrada, em um campo de trigo vazio, um espantalho caído no chão, com um grande nabo no lugar da cabeça. De bom coração, Sophie levanta o espantalho. Para sua surpresa, ele consegue se mexer: baixa a cabeça para olhar Sophie, faz uma reverência e se afasta aos pulos.
Sophie segue o espantalho e, depois de cruzar uma colina, vê a coisa mais impossível que já viu na vida: um enorme castelo mecânico, estranho e com jeito de que vai desmontar a qualquer momento, com quatro pernas de metal em forma de pata de galinha para andar, mais de uma dezena de casinhas empilhadas em cima, chaminés soltando fumaça, caminhando devagar entre as montanhas. É o castelo animado de Howl.

Calcifer
Sophie, essa velha de 90 anos que na verdade tem 18, junta todas as forças para subir no castelo em movimento e entra por uma pequena porta que se abre ao acaso.
Lá dentro há uma casa bagunçada, cheia de frascos mágicos e engenhocas estranhas, tão suja que parece que ninguém varre há meses. Na lareira, no meio da sala, arde uma chama com rosto humano, capaz de falar, em forma de labareda.
A chama pergunta quem ela é. Sophie improvisa que é a nova faxineira. A chama diz que se chama Calcifer, que é o fogo principal do castelo e a fonte de toda a sua magia. Com uma olhada, ele percebe que Sophie carrega uma maldição e que ela não pode contá-la a ninguém.
Calcifer propõe um acordo a Sophie: ele tem um contrato secreto com Howl que o impede de sair dessa lareira para sempre; se Sophie conseguir descobrir esse contrato e desfazê-lo, ele poderá ir embora, e a maldição de Sophie também será desfeita; mas ela não pode contar esse acordo a Howl.
Sophie concorda com a cabeça.
A casa de Howl
O trecho seguinte da história é o que mais se parece, em todo o filme de Miyazaki, com um drama doméstico do dia a dia.
Sophie vai conhecendo aos poucos a pequena família de Howl dentro do castelo: Markl (com a voz de Ryûnosuke Kamiki) é o aprendiz de 9 anos de Howl, que usa um grande chapéu pontudo e aprende magia imitando o mestre; o cachorro Heen é um cãozinho tão gordo que mal consegue andar, e na verdade também tem alguma origem mágica; o espantalho Kabu é aquele boneco de cabeça de nabo que Sophie levantou no deserto e que agora anda ao redor do castelo; mais tarde se junta a eles também a velha Bruxa do Deserto, que perdeu seus poderes e virou uma velha gorda comum.
O próprio Howl quase nunca está no castelo durante o dia. Toda manhã ele sai por “uma das quatro portas” do castelo; essas quatro portas são escolhidas por um disco giratório que leva a cidades diferentes, e do lado de fora pode haver a capital, uma cidadezinha ou o mar.
Dia após dia, Sophie limpa o castelo e cozinha para a pequena família, e a casa, que no início era uma bagunça, vai aos poucos se transformando em um lar aconchegante.

O segredo de Howl
Depois de morar um tempo na casa de Howl, Sophie vai descobrindo aos poucos o segredo desse belo mago.
Howl é um homem fraco, que quer fugir da guerra. O reino inteiro está em guerra com o vizinho, e o rei convocou todos os magos para servir ao reino; Howl não quer ir e, todo dia, troca de rosto para sair sem que o exército o reconheça. Toda vez que Howl sai para “evitar a guerra”, ele se transforma em uma criatura mágica preta, metade homem, metade pássaro, e a cada transformação leva mais tempo para recuperar a forma humana: aos poucos, ele está perdendo a própria humanidade. O “coração” de Howl já não está com ele há anos: quando era criança, ele entregou o coração a Calcifer (a mesma chama da lareira) como preço de um contrato, e por isso Howl não consegue amar ninguém de verdade, e por isso vai perdendo a humanidade aos poucos.
Sophie vai juntando a verdade peça por peça e percebe que, para salvar Howl, precisa devolver o coração a ele; esse é o contrato de que Calcifer falava, e só ela pode fazer isso.
A guerra e as bombas
A outra linha da história é a guerra.
O país de Howl continua em guerra com o vizinho, e as bombas caem sobre as cidades uma vez após outra. Suliman, a principal feiticeira do rei, chama Howl ao palácio e o obriga a entrar na guerra. Dentro do palácio, Howl finge se transformar em uma criatura mágica e consegue fugir.
Mas, naquele mesmo dia, Suliman tira todos os poderes da Bruxa do Deserto, que tinha ido atrás deles, e a transforma em uma velha gorda, comum, que não sabe de nada e que não para de demonstrar instintos maternais em relação a Howl; Sophie a leva de volta ao castelo.
Sophie percebe que o castelo inteiro pode ser destruído pela guerra a qualquer momento, e que a tentativa diária de Howl de “evitar a guerra” é inútil, porque essa guerra vai alcançar todo mundo.
Certa noite, as bombas começam a cair de verdade sobre o vale onde está o castelo. Howl se transforma no céu na criatura mágica preta para enfrentar os aviões inimigos, enquanto Sophie, Markl, o cachorro Heen e a Bruxa do Deserto se abrigam dentro do castelo. As pernas de metal do castelo animado vão desmoronando aos poucos, destruídas pelas explosões.
Devolver o coração a Howl
Na confusão daquela noite, Sophie, ao tentar proteger Calcifer da água que as explosões provocam, acaba jogando um balde de água em cima dele.
Calcifer quase se apaga num instante, e toda a magia do castelo deixa de funcionar porque ele se apagou. Mas, ao mesmo tempo, com o fogo de Calcifer apagado, o contrato entre ele e Howl está prestes a se romper.
O coração de Howl, como “portador” do contrato, também para de bater. O castelo inteiro se desmonta sem a magia, e Sophie, Markl, Heen, o espantalho Kabu e todos os outros caem do alto.

A porta das lembranças de Sophie
Nesse momento, Sophie não desiste. Ela pega a última chama que resta de Calcifer e a coloca dentro de um anel. Com as últimas forças, Calcifer, de dentro do anel, mostra um caminho para o dedo de Sophie.
Sophie empurra a última porta que sobrou do castelo, e essa porta leva à própria infância de Howl.
Sophie entra nas lembranças de infância de Howl. Ela vê Howl, aos 5 anos, de pé à beira do lago do jardim de casa, enquanto uma estrela cadente cai do céu da noite; o pequeno Howl estende a mão e pega a estrela, que é Calcifer na versão de 5 anos.
Para dar a essa estrela moribunda uma chance de sobreviver, o pequeno Howl faz um contrato com Calcifer usando o próprio coração: entrega o coração por um tempo a Calcifer, e Calcifer usa o coração de Howl para manter a chama acesa.
Sophie se aproxima e diz ao pequeno Howl que espere por ela, que a Sophie do futuro vai voltar para procurá-lo. Com delicadeza, ela devolve ao peito do pequeno Howl a pequena chama de Calcifer que estava no anel, e o coração de Howl volta a bater.
A porta do tempo se fecha, Sophie é expulsa da lembrança e cai de volta sobre os destroços do castelo desmontado.
O coração verdadeiro
Sophie vê Howl, aquela criatura mágica preta que vinha combatendo aviões no céu, descer devagar até o chão e voltar a ser o homem de 25 anos, belo, o mesmo que ela conheceu no primeiro dia; o peito dele volta a ter batimentos.
Howl abre os olhos e, pela primeira vez, vê Sophie de verdade. Com a mão ainda trêmula, toca de leve o rosto dela e diz: Sophie, o cabelo dela é como as estrelas.
Sophie toca o próprio cabelo e descobre que ele voltou a ser branco-prateado (não mais o branco dos 90 anos), e o rosto dela também vai mudando aos poucos, de volta ao de 18 anos.
O coração sincero de Howl faz com que a maldição de Sophie também seja quebrada.
O final
O último trecho do filme mostra Sophie, Howl, Markl, a velha Bruxa do Deserto, o cachorro Heen e Calcifer (agora livre) indo morar juntos no novo castelo animado, menor, que Howl reconstruiu e que flutua no céu por meio da magia.
Nesse momento, Sophie beija suavemente a testa de Kabu, o espantalho de cabeça de nabo que ela mesma levantou no deserto. O feitiço do espantalho se quebra, e ele volta a ser o príncipe desaparecido do reino vizinho. O príncipe volta ao seu país e, no dia seguinte, assina um acordo de cessar-fogo com o reino vizinho; a guerra inteira termina de repente.
A última cena mostra o novo castelo flutuando entre as nuvens, com Sophie, Howl, Markl e Calcifer, já uma família, voando pelo céu sobre a sua cidade natal.

O que Miyazaki quer dizer com este filme é isto: Howl não é um herói, é um homem que queria fugir da guerra, que não queria se alistar, mas que no fim aceita se pôr no céu diante das balas pela pessoa que ama; Sophie não é uma princesa, é uma simples chapeleira de 18 anos que acha que não é bonita, mas que aceita entrar nas lembranças de outra pessoa para devolver a ela, com as próprias mãos, o coração que ela perdeu. O amor não é a beleza do amor à primeira vista: o amor é estar disposta a ir até a lembrança mais profunda daquela pessoa e devolver a ela o coração perdido com as próprias mãos, mesmo que isso possa custar a sua vida. Quando, no final, Sophie diz ao pequeno Howl de 5 anos “espere por mim, a eu do futuro vai voltar para procurar você”, essa é a carta de amor que Miyazaki escreveu, atravessando o tempo, para todos os “dois que ainda não se encontraram, mas que estão destinados a se encontrar”.