A Vida Entre Nós
Quinze anos depois, ele chega de carro à cidade onde ela o esperava havia muito tempo: um guia completo do enredo de A Vida Entre Nós, filme francês sobre um ator em crise que foge de Paris e reencontra por acaso, numa cidade litorânea, a antiga namorada de quinze anos antes; os dois reacendem o velho amor sob o peso da maturidade, só para se despedirem mais uma vez
Título
A Vida Entre Nós
Hors-saison
Ano / Duração
2023 · 115 minutos
Gênero
Drama
Direção
Stéphane Brizé
Roteiro
Stéphane Brizé e Marie Drucker
Avaliação
Elenco
Guillaume Canet (como Mathieu), Alba Rohrwacher (como Alice), Sharif Andoura (como Xavier), Marie Drucker (como a esposa de Mathieu)
Prêmios
80º Festival de Veneza: indicado ao Leão de Ouro na competição principal
Mathieu (Guillaume Canet) é um ator parisiense famoso. Poucos dias antes da estreia, ele abandona de repente os ensaios de uma peça de teatro e sai da cidade sozinho, de carro, rumo a um spa na costa da Bretanha.
Ninguém sabe aonde ele foi. A esposa liga e ele atende, mas os dois trocam só frases superficiais, e ele não consegue dizer o que sente de verdade. Nem ele mesmo tem um motivo claro para essa fuga: é apenas um cansaço difuso, a sensação de que não aguenta mais.

O encontro
O spa fica na periferia de uma cidade de tons acinzentados, quase deserta na baixa temporada. Ali, Mathieu encontra Alice (Alba Rohrwacher).
Alice foi sua namorada quinze anos antes. O fim do namoro foi uma decisão só de Mathieu: repentina, seca, sem nenhuma explicação. Quinze anos depois, ela vive nesta cidade: casou-se com um homem chamado Xavier (Sharif Andoura), teve uma filha, dá aulas de piano e ajuda a administrar uma pequena pousada.
Os dois se cruzam na rua, ambos fingem calma e trocam gentilezas. Depois, ela o convida para jantar. A conversa à mesa é cautelosa, cheia de assuntos sem importância, enquanto os dois evitam o que realmente importa.

O ritmo da cidade
Mathieu não vai embora logo. Na baixa temporada o tempo se estica, a rotina do spa é simples e vazia, e ele passa a encontrar Alice de vez em quando: na rua, num café, no jantar de um morador da cidade.
Aos poucos, os dois recuperam um pouco da antiga cumplicidade. Alice o leva para ver um imitador de pássaros, que reproduz os cantos com tanta precisão que arranca aplausos de toda a plateia. Em meio às palmas, eles trocam um olhar, como se dividissem um sorriso cúmplice que só os dois entendem.
Essa sintonia deixa os dois com uma ponta de inquietação.
Numa noite, Alice diz a Mathieu que o marido não está em casa e pergunta se ele quer jantar. Ele vai. Durante o jantar, ela se senta ao piano e toca uma peça que compôs anos antes, uma peça que ninguém nunca ouviu com atenção. Mathieu escuta e diz exatamente o que ela precisava ouvir. Alice chora.

A confissão
Na festa de um amigo, os dois dançam juntos. Naquela noite, Mathieu não volta para o spa.
No dia seguinte, Alice o procura e lhe faz uma pergunta cuja resposta já conhece: “Por que você não voltou ontem à noite? Você sabe que tudo isso vai acabar, não sabe?”
Mathieu lhe deixa um bilhete: “Não consigo explicar por que fiquei ontem à noite. Ficar foi uma decisão errada. Mas desta vez não vou esperar quinze anos para lhe pedir desculpas, como da última vez: peço agora mesmo. Desculpe.”
Alice, parada à porta do quarto dele, diz: “Não volte mais, está bem?”
Antes disso, ela lhe havia dito outra coisa: “Por você, eu organizei tudo isso.” Ela sabia fazia muito tempo que ele gostava de vir a esse spa. Mudou-se para a cidade, casou-se ali, teve a filha, abriu a pousada. Fez tudo isso só para poder esperá-lo ali algum dia.

A despedida
Mathieu deixa a cidade e volta de carro para Paris.
O filme não dá nenhuma resposta sobre o “depois”: se ele retorna à peça, se faz as pazes com a esposa, se consegue explicar tudo isso a si mesmo. Alice fica na cidade e volta para o marido, a filha, o piano e a pousada.
O filme intercala uma entrevista: um homem de mais de oitenta anos conta como, já no fim da vida, encontrou o grande amor; os dois se conheceram, ficaram juntos e foram felizes até o fim dos seus dias. Esse trecho, aparentemente casual, funciona como um espelho que reflete os caminhos diferentes escolhidos por Mathieu e Alice.
O diretor Stéphane Brizé filma tudo isso com sua contenção habitual: a paleta litorânea de azuis, brancos e cinzas; diálogos que muitas vezes mostram apenas o perfil de um dos dois; muito silêncio e planos vazios da paisagem. A emoção não vem à superfície, mas se esconde entre as falas, naquele olhar trocado, naquela breve pausa.

As histórias de amor da meia-idade costumam ser histórias de arrependimento. A Vida Entre Nós não fala de “e se naquela época”, mas de “mesmo agora”: mesmo que cada um já tenha sua vida, mesmo que ambos saibam que isso não pode dar em nada, o sentimento guardado por quinze anos volta à tona num reencontro casual, arde por pouco tempo e depois se apaga outra vez. O título original, Hors-saison, quer dizer que o momento já passou; mas também pode significar que certos sentimentos nunca tiveram estação.