Antes do Amanhecer
Em uma noite em Viena, dois desconhecidos decidem descer juntos do trem: um amor de apenas catorze horas, que exige toda a coragem de uma vida
Título
Antes do Amanhecer
Before Sunrise
Ano / Duração
1995 · 101 minutos
Gênero
Drama / Romance
Direção
Richard Linklater
Roteiro
Richard Linklater / Kim Krizan
Avaliação
Elenco
Ethan Hawke, Julie Delpy
Prêmios
45º Festival de Berlim: Urso de Prata de Melhor Direção
No trem
Em um trem de Budapeste para Viena, um casal de meia-idade discute aos gritos em alemão. Sentada à frente deles, a francesa Céline não aguenta o barulho e troca de lugar, indo parar bem em frente ao americano Jesse.
Jesse tem vinte e três anos e passou o verão inteiro vagando sozinho pela Europa; amanhã cedo pega um avião em Viena de volta aos Estados Unidos. Céline também tem vinte e três, estuda em uma universidade em Paris e está a caminho de casa. Os dois começam a conversar: no início, gentilezas sobre viagens e sobre seus países, mas logo o assunto deixa de ser comum.
Falam de tempo, de morte, de reencarnação, do casamento dos pais, do medo do amor. Céline diz que acredita que a alma circula entre as pessoas. Jesse diz que não acredita, mas que gosta de ouvi-la falar.

Descer do trem
O trem chega a Viena. Jesse devia seguir a bordo até o aeroporto, mas toma uma decisão maluca. Vira-se para Céline e diz: desça comigo. Só uma noite andando por Viena; amanhã de manhã eu pego meu voo e você segue de trem para Paris. Só esta noite.
Ele diz: imagine que você tem oitenta anos e está sentada diante da lareira, lembrando da vida. Não se arrependeria de não ter descido deste trem hoje?
Céline o observa por alguns segundos e sorri. Pega a mochila e desce com ele na plataforma.

A noite em Viena
Não têm dinheiro para um hotel nem plano nenhum. A noite inteira, andam pelas ruas de Viena.
Vão ao parque de diversões Prater e sobem na enorme roda-gigante. Quando a roda chega ao ponto mais alto, Jesse beija Céline. As luzes de Viena se espalham a seus pés como um cobertor cravejado de estrelas.
Passeiam à beira do Danúbio e cruzam com uma cigana que lê a sorte. A mulher olha a palma da mão de Céline e diz que ela é alguém que “está aprendendo a ser ela mesma”. Céline sorri sem se comprometer, mas Jesse percebe que algo a tocou por dentro.

Entram em uma loja de discos e se enfiam juntos em uma cabine de audição para ouvir um vinil. No espaço apertado, ficam muito próximos, ligados pelo fio do fone. A música flui entre os dois; eles se espiam e desviam o olhar depressa quando o outro se vira. É talvez uma das cenas de clima romântico mais silenciosas e delicadas da história do cinema.
Sentam-se em um pequeno café e brincam de um jogo: fingir que telefonam para os respectivos amigos para contar que acabaram de conhecer alguém. Pelo relato “ao telefone”, dizem o que seria difícil dizer cara a cara: acho que ele é especial, nunca conheci alguém assim, não quero que esta noite termine.
Madrugada
A noite avança e a conversa fica cada vez mais profunda.
Jesse conta que os pais se separaram quando ele era muito pequeno e que ele já não tem ilusões sobre o “amor eterno”. Céline conta que a avó, antes de morrer, lhe disse que o maior arrependimento da vida dela foi não ter viajado nem se aventurado mais, e ter passado tempo demais com medo.

Chegam a uma ponte e veem o Danúbio correr sob o luar. Céline diz: você não sente, às vezes, que conhecer alguém muda por completo a sua visão do mundo? Mesmo que você nunca mais veja essa pessoa, uma parte sua já mudou para sempre.
Jesse fica em silêncio por um momento e diz: agora mesmo eu sinto isso.
Deitam-se no cemitério de uma igreja e olham o céu estrelado acima deles. As mãos se encostam e, em seguida, os dedos se entrelaçam. Naquele instante, Viena, o trem, o avião de amanhã, as aulas em Paris, tudo deixa de existir. No mundo só restam os dois e uma noite que se apaga.
Amanhecer
O dia começa a clarear.
No caminho de volta à estação, os passos ficam cada vez mais lentos. Catorze horas antes eram desconhecidos e agora precisam se despedir, talvez para sempre.
Não trocam números de telefone. Não trocam endereços. Em 1995 não havia celular, nem redes sociais, nada que pudesse manter ligadas duas pessoas em lados opostos do Atlântico.
Jesse diz: vamos nos encontrar aqui de novo em seis meses, nesta mesma plataforma. Sem ligar, sem escrever, só confiando. Se nós dois aparecermos, vai ser sinal de que isso não foi um impulso passageiro.
Céline assente com a cabeça.

O trem chega. Céline embarca e olha para Jesse pela janela. O trem parte; as mãos dos dois se encostam por um momento no vidro e depois se afastam devagar.
Jesse fica parado na plataforma vazia, vendo o trem sumir no fim dos trilhos.
As últimas cenas do filme mostram os lugares por onde eles passaram (a roda-gigante, a ponte, a igreja, o café, a loja de discos), agora vazios. Sem Jesse e Céline, esses lugares voltam a ser ruas comuns de Viena.
Eles voltarão em seis meses?
O filme não responde. A resposta fica para a continuação, nove anos depois, Antes do Pôr do Sol.