12 Citizens
Onze votos contra um e um duelo contra o preconceito: a história completa de 12 Citizens, em que doze pessoas comuns de classes sociais diferentes derrubam o veredito de "culpado" em um galpão abafado
Título
12 Citizens
Ano / Duração
2014 · 106 minutos
Gênero
Drama
Direção
Ang Xu
Roteiro
Yujiao Li / Jinglong Han / Ang Xu
Avaliação
Elenco
Bing He, Tongsheng Han, Bo Qian, Longhao Zhao, Tiezeng Mi
Obra original
Baseado no clássico de 1957 12 Homens e Uma Sentença
Prêmios
30º Prêmio Galo de Ouro: Melhor Roteiro Adaptado; Festival Internacional de Cinema de Xangai 2015: Prêmio da Mídia de Melhor Filme
Uma prova de recuperação em forma de tribunal simulado
Durante as férias de verão, uma faculdade de direito aplica a prova de recuperação da disciplina de direito anglo-saxão. A prova é um tribunal simulado: os alunos fazem o papel da acusação e da defesa e debatem um caso de homicídio que aconteceu de verdade. Os pais deles, doze pessoas comuns de profissões bem diferentes, são convidados a atuar como “jurados”.
O caso provocou enorme polêmica: um jovem adotado por um empresário rico (o chamado “filho de rico”, como se diz na China) é acusado de matar o pai biológico, um migrante de Henan que trabalhava na cidade. Na noite do crime, um vizinho ouve uma briga violenta entre pai e filho. Pouco depois, o pai aparece morto em casa, com ferimentos de faca. Um canivete automático igual ao que o acusado comprou é identificado como a arma do crime. Além disso, um idoso do andar de baixo afirma ter ouvido o acusado gritar “Eu vou te matar!”, e uma moradora do prédio da frente diz ter visto o crime pela janela. A cadeia de provas parece bem sólida.
Terminado o julgamento simulado dos alunos, os doze pais são levados a um galpão abafado da faculdade para deliberar. A regra é simples: dentro do prazo, eles precisam chegar a um veredito unânime sobre a culpa do acusado.

Onze contra um
A maioria não tem o menor interesse no assunto. Faz um calor sufocante, o galpão nem tem ar-condicionado, e todos só querem votar logo e ir embora. Quase todos dão como certo que o “filho de rico” é culpado: as provas parecem contundentes, e a opinião pública já o condenou de antemão.
Na primeira votação, onze levantam o cartão de “culpado”. O único que levanta o de “inocente” é o homem de meia-idade sentado na cadeira número 8, interpretado por Bing He.
A reação é imediata. Alguns acham que ele só quer atrapalhar, outros explodem de raiva, outros o acusam de querer aparecer. O jurado número 3, um taxista de meia-idade e pavio curto, interpretado por Tongsheng Han, é o primeiro a confrontá-lo: com todas as provas na mesa, com que direito ele diz que o acusado é inocente?
O jurado número 8 não diz que o acusado é inocente. Ele só diz: “Acho que, pelo menos, deveríamos conversar um pouco”. Quando alguém pode acabar condenado à morte, é exagero dedicar uma hora a discutir o caso com seriedade?
As dúvidas aparecem
O jurado número 8 começa a desmontar, uma a uma, as provas que pareciam inabaláveis.
Sobre a arma do crime: a acusação sustenta que a arma é um canivete automático incomum, e o acusado de fato comprou um igual. Mas o jurado número 8 tira do bolso uma faca idêntica, que ele comprou sem dificuldade em uma lojinha perto do local do crime. Isso mostra que a faca não é tão rara e que qualquer pessoa poderia ter uma igual.
Sobre o depoimento do idoso do andar de baixo: o idoso afirma ter ouvido o acusado gritar uma ameaça e tê-lo visto descer a escada correndo. Mas o jurado número 8 nota que, justamente naquela hora, passava um trem, e o barulho enorme abafaria qualquer grito. Além disso, o idoso tem dificuldade para andar e levaria bastante tempo para ir do quarto até a porta. Ele não poderia ter chegado tão rápido depois de ouvir o grito a ponto de ver o acusado.

Preconceito e fúria
A discussão fica cada vez mais acalorada, e a temperatura do galpão sobe junto. Aos poucos, cada um começa a mostrar sua verdadeira face.
O jurado número 3 (interpretado por Tongsheng Han) é o mais teimoso do lado do “culpado”. Ele é taxista e há anos está rompido com o próprio filho, que se rebelou, saiu de casa e nunca mais voltou. Contra esse “filho de rico”, que ele vê como um ingrato, sente uma fúria quase instintiva: na visão dele, filho que desrespeita o pai merece castigo. O julgamento dele já não se baseia nas provas, e sim na própria ferida pessoal.
O jurado número 4 é um empresário do ramo imobiliário, esperto. Apesar de parecer racional, no fundo despreza as pessoas humildes. Ele acha que o pai biológico, aquele migrante de Henan, também não era boa pessoa, e que o ambiente em que o “filho de rico” cresceu já o condenava de antemão a seguir o caminho do crime.
O jurado número 10 é um pequeno comerciante cheio de preconceito contra gente de fora. Mal abre a boca e já vem com “essa gente de Henan”, levando a discriminação regional ao extremo. A lógica dele é simples: o que de bom pode sair do filho de um forasteiro? As palavras dele revoltam todos os presentes, inclusive quem até então votava “culpado”. Um por um, eles se levantam e viram as costas, recusando-se a continuar ouvindo.

A virada
À medida que a discussão avança, mais e mais jurados começam a hesitar.
O jurado número 5 é um jovem calado. Ele quase não fala, até que alguém menciona “gente que já foi presa” e o olhar dele muda. Acontece que ele mesmo já foi preso injustamente no passado e conhece de perto a dor de uma condenação errada. No fim, muda o voto para “inocente”.
Sobre o depoimento da moradora do prédio da frente: ela é a testemunha ocular mais importante da acusação. Afirma ter visto o crime pela janela. Mas o jurado número 8 repara em um detalhe: essa mulher tem uma marca funda de óculos no nariz, sinal de que usa óculos o tempo todo. E o crime aconteceu de madrugada, e ninguém acorda no meio da noite já de óculos. Sem eles, com pouca luz e a distância de dois prédios, será que ela realmente conseguiu ver com clareza o que aconteceu?
Esse raciocínio leva outro grupo para o lado do “inocente”.
O jurado número 9 é um idoso que já viveu muito. Ele entende por que o idoso que testemunhou pode ter mentido: não por maldade, mas por solidão. Um velho esquecido pela sociedade que, de repente, tem a chance de ser a testemunha-chave de um caso importante, alguém que finalmente querem ouvir. Esse desejo de se sentir necessário basta para que, sem perceber, ele exagere ou até invente o que diz ter visto e ouvido.

A última resistência
As votações se sucedem. Do onze contra um inicial, passa-se a nove contra três, seis contra seis, três contra nove… os votos por “inocente” não param de crescer.
No fim, só o jurado número 3 continua firme no “culpado”. Todas as provas foram postas em dúvida de forma razoável, toda a lógica aponta para a incerteza, mas ele se recusa a mudar o voto.
A sala inteira fica em silêncio, e todos olham para ele. O jurado número 3, de rosto vermelho, está à beira do colapso. Ele grita, joga coisas, despeja toda a raiva que sente pelo caso. Mas aos poucos todos percebem que essa raiva não é contra o acusado, e sim contra o próprio filho, que saiu de casa.
Com as mãos trêmulas, ele tira da carteira uma foto sua com o filho, rasgada ao meio e colada de novo. Esse homem teimoso finalmente desmorona. Chorando, diz a palavra “inocente”.
Doze a zero. Unanimidade: inocente.

A verdade vem à tona
Terminada a deliberação, todos saem do galpão abafado. O sol é forte, o ar está fresco, e cada rosto mostra uma mistura de alívio e reflexão.
Nos créditos finais, letreiros revelam o desfecho real do caso: a Promotoria de Pequim já havia questionado a fundo as provas e decidiu não denunciar o “filho de rico”. Mais tarde, o verdadeiro culpado foi preso.
Ao sair do galpão, o jurado número 8 caminha até um carro estacionado no campus com o emblema da promotoria: ele próprio é promotor. A insistência dele em defender o “inocente” nesse tribunal simulado não vem só das dúvidas sobre as provas, mas de ele conhecer, melhor do que ninguém, o peso da justiça.
Essas doze pessoas comuns, numa tarde dentro de um galpão decadente, completam uma aula de cidadania sobre preconceito, justiça e razão.