Up: Altas Aventuras
Uma casa velha erguida por milhares de balões: a história completa de Up: Altas Aventuras, animação da Pixar, da cachoeira sul-americana que Carl e Ellie nunca conseguiram visitar até a última frase que o velhinho lê no caderno da esposa falecida
Título
Up: Altas Aventuras
Up
Também conhecido como: Up: Altamente (Portugal)
Ano / Duração
2009 · 96 minutos
Gênero
Animação / Aventura / Comédia / Drama / Família
Direção
Pete Docter, Bob Peterson
Roteiro
Bob Peterson / Pete Docter / Tom McCarthy
Avaliação
Elenco
Edward Asner, Jordan Nagai, Bob Peterson, Christopher Plummer, John Ratzenberger
Prêmios
Oscar 2010: Melhor Filme de Animação e Melhor Trilha Sonora Original
Up: Altas Aventuras é um filme da Pixar de 2009 e, para muita gente, aquele que tem “os cinco minutos iniciais capazes de fazer um adulto chorar”. Mas a história de verdade não é a de uma casa levada ao céu por balões, nem a de um idoso que atravessa um continente sozinho. É a de um viúvo que, depois da morte da esposa, é forçado a decidir viver outra vez.
Os cinco minutos iniciais: Carl e Ellie
O filme abre com uma montagem quase sem diálogos, só música e imagens, que a crítica chama sempre de “os cinco minutos mais perfeitos da Pixar”.
O pequeno Carl é um menino nerd que admira o explorador Charles Muntz. A comunidade acadêmica acusou Muntz de fraude por ele ter descoberto uma ave gigante e estranha sobre a “Terra Perdida” sul-americana (Paradise Falls, a misteriosa Cachoeira do Paraíso). Furioso, ele jurou não voltar para casa sem trazer a ave viva e desapareceu na selva sul-americana a bordo do seu dirigível.
Um dia, na volta da escola, Carl invade uma casa velha e abandonada e conhece Ellie, uma menina que também admira Muntz. Ellie é maluquinha, animada e tem a voz alta. Ela mostra a Carl o seu “Livro de Aventuras”, com capa feita à mão, e na primeira página desenha o maior sonho da sua vida: um dia levar a própria casa até a Cachoeira do Paraíso. Ela faz Carl “jurar solenemente” que vai ajudá-la.
Os dois crescem, se casam e se mudam para aquela mesma casa velha em que entraram quando crianças, agora totalmente reformada. Começam a guardar dinheiro, centavo por centavo, num pote com a inscrição “Cachoeira do Paraíso”. A vida é simples e acolhedora (passeios no parque, nuvens, Carl amarrando o cadarço de Ellie, os dois deitados na grama olhando uma nuvem em forma de dirigível), mas a realidade interrompe a poupança várias vezes: é preciso consertar uma goteira no telhado, trocar um pneu furado, e um acidente tira de Ellie a esperança de ter filhos.
Os dois envelhecem. Na manhã em que Carl finalmente compra duas passagens de avião para fazer uma surpresa a Ellie, ela morre no hospital.
Quando a montagem termina, Carl sai sozinho da igreja e volta, com a urna das cinzas de Ellie nos braços, para a casa onde os dois viveram a vida inteira.
O velho que não quer se mudar
O Carl idoso é um homem teimoso e ranzinza, que vive sozinho e olha o mundo da varanda. Uma construtora já comprou todos os terrenos ao redor da casa dele e ergueu prédios altos. Só a casinha colorida continua de pé, solitária, no meio da obra. Carl se recusa a vender e se recusa a receber visitas. Toda manhã segue a rotina que Ellie estabeleceu: levanta, toma café e conversa com o retrato dela.
Um menino desajeitado de 8 anos, Russell, bate à porta de Carl. Russell é escoteiro do grupo “Exploradores Selvagens” e está juntando todas as insígnias possíveis. Falta só a última, a de “Ajudar os Idosos”. Parado na porta, ele recita o manual: “Há algum idoso em casa precisando de ajuda?”. Carl só quer se livrar dele.
Num confronto com os operários da construtora, Carl acerta sem querer a cabeça de um deles com a bengala. O tribunal o declara “um perigo para a sociedade” e determina que, no dia seguinte, uma van do asilo venha buscá-lo.

Naquela noite, Carl olha o Livro de Aventuras de Ellie, o mesmo livro que os dois seguram desde a infância, com a frase “Minha Aventura” colada na folha de rosto, seguida de dezenas de páginas em branco. Diante das páginas vazias, ele murmura: “Eu não te dei uma aventura de verdade”.
Na manhã seguinte, quando o pessoal do asilo chega, Carl solta pela chaminé milhares de balões de gás hélio que passou meses enchendo à mão. A casa inteira, com tudo e alicerce, é erguida pelos balões e se separa da cidade. No ar, o idoso tira o chapéu para cumprimentar os cuidadores: decidiu cumprir pessoalmente aquela promessa.
Um pequeno passageiro clandestino
Quando a casa já voa acima das nuvens, Carl ouve batidas na porta. Ele abre: Russell está agachado na varanda dele. Ao tentar escapar da van do asilo, Russell tocou a campainha errada e acabou subindo na casa pouco antes de ela decolar.
Assim começa a “parceria” dos dois: um viúvo que não quer ser incomodado e um garoto gordinho que quer completar a última insígnia.
Depois de atravessar uma tempestade, a casa pousa na selva sul-americana. Carl olha o GPS: faltam só algumas milhas até a Cachoeira do Paraíso, mas há um desfiladeiro no caminho. Ele decide arrastar a própria casa, passo a passo, até o lugar que Ellie escolheu: amarra a casa com cordas e a puxa a pé pela selva, como quem leva para passear um bicho de estimação feito de balões.
Os companheiros: a ave Kevin e o cachorro falante Dug
Na selva, os dois encontram primeiro uma grande ave colorida que não tem medo de gente. Russell dá a ela o nome de “Kevin” e não para de lhe dar chocolates. Kevin logo se apega a Russell.
Em seguida surge Dug, um golden retriever com uma coleira estranha. Assim que ele abre a boca, a coleira traduz os pensamentos caninos para o inglês: “SQUIRREL! (Esquilo!)”. Dug é o descarte de uma matilha de cães treinados pelo mesmo dono, todos com a mesma coleira tradutora, porque ele é “bobo demais”. Assim que vê Carl, Dug decide que “você é o meu novo dono” e fica grudado no grupo.

Enquanto atravessam a selva, Carl e Russell vão se aproximando. Russell fala do pai, que na verdade saiu de casa há tempos e mora em outra cidade com a nova namorada. Russell vive com a mãe, mas o que mais lhe faz falta são as tardes em que o pai o levava para tomar sorvete e os dois contavam carros vermelhos e azuis, tardes chatas mas tranquilizadoras. Carl escuta em silêncio.
A verdade: Muntz continua vivo
Quando o dirigível aparece no alto da selva, Carl fica sem palavras de tanta empolgação: é o dirigível do ídolo da sua infância. Charles Muntz, o explorador que jurou não voltar sem a ave gigante, continua vivo e já é um idoso, como Carl. Muntz convida Carl, Russell e Dug para o dirigível, oferece um jantar e mostra os fósseis que coletou ao longo dos anos.

Mas, durante o jantar, Muntz percebe sinais da ave gigante no grupo: eles conhecem Kevin. Há décadas ele tenta recapturar aquela “ave estranha” que a comunidade acadêmica pôs em dúvida, e os dois visitantes acabaram de levá-la até a porta dele. Muntz muda de atitude na hora: na verdade, ele já matou vários exploradores, todos os que tentaram se aproximar do seu território. O ídolo de infância de Carl é um louco capaz de matar para proteger a própria reputação.
Na confusão, Kevin é atingida por um dardo tranquilizante de Muntz e trancada numa jaula. Russell chora no ar, agarrado a uma pena que caiu dela: Kevin é, na verdade, uma mãe, e só queria voltar para os seus filhotes.

A página da verdadeira aventura
De volta à casa, de novo erguida pelos balões, Carl se desespera por um momento: já levou a casa de Ellie até a Cachoeira do Paraíso. Pelo último desejo de Ellie, ele já cumpriu a missão. Se agora for salvar Kevin e Russell, pode perder a casa que prometeu à esposa.
Ele se senta e abre mais uma vez o Livro de Aventuras de Ellie, que ficou décadas sem ser aberto. As primeiras páginas são a planta da Cachoeira do Paraíso desenhada pela pequena Ellie. Ele vira as páginas…
As páginas em branco não estavam em branco. Ellie as encheu de fotos de toda a vida dos dois: no parque, no quintal, no hospital, numa cerimônia de premiação, no telhado olhando as nuvens. Na última página, Ellie escreveu, com letra trêmula, durante a internação no hospital:
“Obrigada pela aventura maravilhosa. Agora vá viver a sua próxima aventura. Com amor, Ellie.”
Ellie nunca achou que tivesse perdido a Cachoeira do Paraíso: para ela, os sessenta anos ao lado de Carl foram o seu “Livro de Aventuras” inteiro.
Carl fecha o livro, vai até a porta da casa e joga fora todos os móveis pesados: o sofá, a mesa, a lareira, as cadeiras, o velho piano de Ellie. Sem o peso, a casa volta a subir. Carl assume o comando e pilota a casa como se fosse um barco, para perseguir o dirigível de Muntz.
O confronto final e a despedida
Carl, Russell e Dug enfrentam Muntz no duelo final a bordo do dirigível. Muntz os persegue armado pelo casco externo. Carl solta Kevin da jaula e a manda levar Russell para longe do dirigível. Na perseguição, Muntz fica com o pé preso numa corda, é levado ao céu pelo feixe de balões e por fim cai no mar de nuvens.
Antes de o dirigível cair, Carl faz a casa descer devagar no topo do penhasco, ao lado da Cachoeira do Paraíso, o lugar que Ellie desenhou no livro quando criança. Ele fica um longo tempo diante da casa e diz: “Este é o lugar que você escolheu, Ellie”. Depois volta para casa com Russell no dirigível que Muntz deixou.

O final: na porta da sorveteria
A cena final do filme é muito leve.
Na cerimônia de promoção de Russell, o pai dele não está na plateia. Russell está na fila, de cabeça baixa, quando Carl sobe ao palco de roupa de gala e prende uma insígnia no peito dele: não a de “Ajudar os Idosos”, mas o broche de tampinha de refrigerante de uva que Ellie usava quando criança. Foi o que Ellie deu a Carl quando dividiu um segredo com ele pela primeira vez.
“Esta é a maior honra que posso lhe dar.”
Terminada a cerimônia, os dois se sentam na calçada, na porta da sorveteria, cada um com seu cone, e contam os carros vermelhos e azuis que passam: a mesma tarde “chata mas tranquilizadora” que Russell descreveu a Carl.
Ao fundo, a casa erguida pelos balões já voltou, sem que se saiba quando, da Cachoeira do Paraíso para o céu dos Estados Unidos.
Up: Altas Aventuras nunca foi sobre “cumprir um último desejo”, mas sobre “como achar coragem para viver de novo depois que a pessoa mais amada se foi”. O bilhete de Ellie naquela página é a verdadeira fala de todo o filme.