Meu Amigo Totoro
No fundo da floresta vive um vizinho que só as crianças conseguem ver: um resumo completo do enredo de Meu Amigo Totoro, animação de Hayao Miyazaki sobre duas meninas que passam um verão numa velha casa do campo, enquanto a mãe está doente, e vivem uma aventura ao lado do grande Totoro e do Catbus
Título
Meu Amigo Totoro
となりのトトロ
Também conhecido como: O Meu Vizinho Totoro (Portugal)
Ano / Duração
1988 · 86 minutos
Gênero
Animação / Fantasia / Aventura
Direção
Hayao Miyazaki
Roteiro
Hayao Miyazaki
Avaliação
Elenco
Noriko Hidaka, Chika Sakamoto, Shigesato Itoi, Sumi Shimamoto, Tanie Kitabayashi
Prêmios
13º Prêmio Hochi de Cinema: Melhor Filme; 43º Prêmio Mainichi de Cinema: Prêmio Noburo Ofuji; 12º Prêmio da Academia Japonesa: Prêmio Especial
A história se passa no interior do Japão do pós-guerra, na era Showa. O professor universitário Tatsuo Kusakabe se muda de Tóquio com as duas filhas, Satsuki, a mais velha, de dez anos, e Mei, a caçula, de quatro, para uma velha casa de madeira perto de um hospital. A mudança não tem nada a ver com um ideal de vida no campo: a mãe, Yasuko, está internada há muito tempo por causa de uma doença, e o pai quer que as meninas fiquem mais perto dela e, de quebra, respirem o ar puro do interior.
Em seus 86 minutos, o filme quase não tem “vilão” nem conflitos violentos. Do começo ao fim, conta o encontro de duas crianças com um vizinho, uma grande criatura que vive no fundo da floresta.

A mudança para a casa nova: a agitação dos fuligenzinhos
No dia em que Satsuki e Mei chegam à casa nova com o pai, toda a construção tem um ar sombrio de abandono antigo. A cozinha é escura e a escada range. Entre o corredor e as frestas do teto, as irmãs descobrem umas estranhas criaturas negras e minúsculas, bolinhas redondas de fuligem com dois olhos brilhantes, que se enfiam nas sombras para se esconder assim que veem a luz.
As meninas correm para contar ao pai, que apenas sorri e diz que são “makkurokurosuke” (algo como “bolinhas pretas de fuligem”). A avó de Kanta, a vizinha, explica que esses espíritos se chamam “duendes do carvão” e só se reúnem em casas velhas e vazias. Quando a casa se enche de gente e de risadas, eles vão embora aos poucos. De fato, depois de alguns dias de bagunça e gargalhadas das irmãs e do pai na casa nova, ao entardecer elas veem um enxame inteiro de duendes do carvão sair voando pelas frestas do telhado, rumo a outra floresta.
É a primeira pista que o filme dá ao espectador: nessa casa nova, e na floresta de canforeiras ao lado, vive “algo mais”.
O encontro de Mei com o grande Totoro
Poucos dias depois da mudança, com o pai absorto na tese e Satsuki na escola, Mei fica sozinha brincando no quintal. De repente, duas criaturas misteriosas aparecem perto dela, uma grande e uma pequena, uma branca e semitransparente, a outra minúscula e azul, atravessando a grama aos pulinhos com sacos nas costas. Mei corre atrás delas com um balde, até chegar embaixo da enorme canforeira atrás do quintal.
Um túnel dentro do tronco a atrai para dentro. Rolando e rolando, ela cai numa toca forrada de pelos macios. Ali conhece pela primeira vez “Totoro”: uma grande criatura de pelagem cinzenta, muitas vezes maior que ela, dormindo profundamente, com o peito subindo e descendo no ritmo da respiração e um ronco que parece vento grave nas copas das árvores. Sem medo nenhum, Mei sobe na barriga dele, puxa seu nariz e, imitando o rugido, diz “To-to-ro”. A criatura entreabre os olhos sonolentos e responde com um rugido: “TOTORO”. Assim, o guardião da floresta ganha nome dentro da família.
O pai e Satsuki encontram Mei dormindo ao pé da canforeira. Ela tem certeza de que viu “Totoro” de verdade, e o pai, em vez de rir, leva as duas meninas até a árvore para agradecer com seriedade: “É o deus da floresta. É uma sorte ele ter deixado você vê-lo.”
O ponto de ônibus na noite de chuva
Algumas semanas depois, cai de repente um temporal ao entardecer. Satsuki leva Mei para esperar o ônibus em que o pai volta do trabalho, mas o tempo passa e ele não chega. Escurece cada vez mais, e Mei, carregada nas costas da irmã, adormece de cansaço. Enquanto Satsuki aguenta firme sob o único guarda-chuva, uma sombra grande e peluda para ao lado dela sem fazer barulho.

É Totoro. Ele carrega uma folha de lótus na cabeça para se proteger da chuva. Satsuki hesita um instante e oferece o outro guarda-chuva da casa. Totoro, que vê um “guarda-chuva” pela primeira vez, fica tenso por um momento. Logo uma gota enorme cai da folha sobre o tecido com um “plof!”, e ele pula de emoção, sacudindo de uma vez todas as gotas acumuladas na árvore, o que faz Satsuki cair na gargalhada.
Pouco depois, pela floresta, aproxima-se um veículo estranhíssimo que só elas conseguem ver: um enorme ônibus em forma de gato, com muitas patas, cujos grandes faróis amarelos são, na verdade, os olhos dele. Totoro sobe de um pulo no Catbus e deixa para as irmãs um pequeno embrulho feito de folhas, antes de o veículo sumir rugindo entre as árvores. Satsuki abre o embrulho: dentro há um punhado de sementes de bolota.
A dança noturna na floresta
De volta à casa, as irmãs plantam com cuidado as sementes que Totoro deu. Os dias passam e nada acontece. Numa noite de lua cheia, um barulho estranho as acorda. Elas correm para o quintal e veem os três Totoros, o grande, o médio e o pequeno, reunidos em volta do lugar onde plantaram, fazendo com as mãos uns gestos rituais muito particulares.

As irmãs se juntam aos gestos, e de repente a terra sob seus pés começa a vibrar. Incontáveis brotos minúsculos surgem e crescem a toda velocidade, até se transformarem num instante numa árvore gigantesca que cobre o céu. As meninas pulam de alegria e sobem na barriga de Totoro, sentando-se no peito dele enquanto são lançadas até o topo da copa.

Totoro tira uma folha enorme em forma de pião, pula nela e leva as meninas voando pelo céu noturno. De lá, elas sobrevoam os campos, a vila e as montanhas ao longe, até pousar no galho de uma árvore gigantesca, onde os três Totoros tocam pequenas ocarinas de barro, enquanto as irmãs ouvem encantadas sob o céu da noite, até adormecerem.
Na manhã seguinte, elas acordam no quarto. A árvore gigante que viram pela janela desapareceu, mas, no lugar onde plantaram as sementes, brotam de verdade uns pequenos fios verdes, recém-nascidos. Aquela noite não foi um sonho.
O telegrama e o desaparecimento de Mei
O verão avança, e as irmãs esperam ansiosas que a mãe, Yasuko, saia do hospital. Mas um dia chega à escola um telegrama urgente: a saúde da mãe teve uma recaída, e o plano de ela voltar para casa no fim de semana precisa ser adiado. Satsuki finge calma ao receber a notícia, mas Mei percebe sua tristeza.
Em casa, as irmãs brigam por causa disso. Mei insiste, teimosa, em ir sozinha a pé até o hospital para ver a mãe. Satsuki, exasperada, grita: “Você sabe o quanto é longe a pé?”. De cara amarrada, Mei sai correndo, chorando.
Quando Satsuki termina de cozinhar e percebe, a irmã não está mais lá. Ela a procura desesperada pelos campos e só encontra, na beira de uma plantação, uma sandália que Mei deixou cair. Os vizinhos, achando que Mei pode ter caído no lago, dragam a água, e ao ver a sandália que eles tiram de lá, o coração de Satsuki se aperta. Mas, ao olhar com atenção, ela vê que não é de Mei.
Sem alternativa, Satsuki corre até a canforeira no fundo da floresta e grita, entre lágrimas: “Totoro! Por favor, me ajude a encontrar a Mei!”
O Catbus e a espiga de milho
O grande Totoro aparece. Com um gesto suave da mão, depois de uma rajada de vento estranha, o Catbus desce do céu. No letreiro de destino dele acende-se de imediato uma palavra: “Mei”.

Satsuki pula dentro do Catbus, que avança sobre suas doze patas, atravessando arrozais, encostas e postes de luz, até parar diante de uma estátua de Jizo à beira da estrada. Ali está Mei, encolhida, abraçando com força uma espiga de milho em que escreveu “Para a mamãe” (okāsan e): o presente que levava escondida para a mãe doente. As irmãs se abraçam apertado, e Satsuki, chorando, se culpa por não ter cuidado bem da irmã.
O Catbus não as leva de volta para casa. O letreiro de destino muda mais uma vez e agora marca “Hospital de Shichikokuyama”, o lugar onde a mãe está internada. O Catbus corre sem parar até deixar as irmãs numa árvore em frente à janela do hospital.
Dos galhos, elas veem o pai conversando com a mãe no quarto. Ela está com um aspecto melhor que antes, e os dois falam também das filhas. Satsuki e Mei tinham pensado em descer para vê-la, mas, ao ouvir que a conversa dos pais é tranquilizadora, ficam mais aliviadas. Mei deixa com cuidado no parapeito a espiga com a inscrição “Para a mamãe”, e as duas vão embora em silêncio com o Catbus.
Na cena final, a mãe descobre no parapeito a espiga coberta de orvalho e, ao ver as letras tortas gravadas nela, diz sorrindo ao marido: “Dá para ver que foi uma criança que escreveu.” Ao longe, as duas irmãs se despedem acenando da árvore, e o Catbus se perde com elas no entardecer.
As ilustrações finais, em estilo de história em quadrinhos, contam ao espectador que, meses depois, a mãe se recupera e volta para casa. As duas meninas a recebem no quintal, junto com a vovó vizinha e os demais vizinhos, sem nunca mais se encontrar com a grande criatura da floresta. Enquanto a música de encerramento toca suavemente, aquele “vizinho” chamado Totoro fica para sempre na floresta de canforeiras daquele verão.
Um verão sobre a infância
Meu Amigo Totoro não tem vilão nem um conflito dramático de tirar o fôlego. O filme conta o verão que duas irmãs passam no campo no ano em que a mãe adoece, e o vizinho da floresta que elas encontram justamente quando se sentem mais desamparadas. Em 86 minutos, Hayao Miyazaki reconstrói todos os detalhes bonitos de um verão da infância: o ar pesado antes da tempestade, o ranger do assoalho da casa velha, o canto das cigarras ao acordar da soneca, a sensação de andar descalço sobre a madeira.
Totoro, essa criatura, nunca fala, nunca explica por que aparece nem por que decide ajudar duas meninas humanas. Ele simplesmente existe, como aquele amigo secreto que só nós mesmos conseguimos ver e que toda criança carrega dentro de si. O filme nos diz que o mais precioso da infância não é ter encontrado de verdade um espírito, mas aquele tempo em que acreditávamos que eles ainda existiam.