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Enquanto a Cidade Dorme

O policial veterano e o novato na noite mais longa: um guia completo da história de Enquanto a Cidade Dorme, a noite em Los Angeles em que uma dupla de policiais caça os assassinos de policiais, e em que vêm à tona a vingança pessoal do veterano, o descontrole de um parceiro corrupto e tudo o que uma cidade encara quando olha para o abismo

Título

Enquanto a Cidade Dorme

Crown Vic

Ano / Duração

2019 · 110 minutos

Gênero

Drama / Crime

Direção

Joel Souza

Roteiro

Joel Souza

Avaliação

Elenco

Thomas Jane, Luke Kleintank, Josh Hopkins, David Krumholtz, Bridget Moynahan

Prêmios

Festival de Tribeca 2019: exibição oficial

Enquanto a Cidade Dorme
Cena de Enquanto a Cidade Dorme Cena de Enquanto a Cidade Dorme Cena de Enquanto a Cidade Dorme Cena de Enquanto a Cidade Dorme Cena de Enquanto a Cidade Dorme
Aviso de spoilers: O texto a seguir conta a história inteira, as reviravoltas e o final. Você pode pular pelos capítulos até a parte que quer relembrar.

O título original, “Crown Vic”, vem do carro que simboliza toda uma geração de policiais americanos: o Ford Crown Victoria Police Interceptor. O filme se passa quase inteiro dentro de uma dessas viaturas velhas: um turno da noite, um policial veterano perto da aposentadoria, um novato no primeiro dia de rua e tudo o que Los Angeles quer mostrar a eles na escuridão.

Abertura: dois policiais em uma emboscada

O filme começa com um ataque a policiais seco e eficiente. Na madrugada, dois policiais de Los Angeles examinam um veículo suspeito na rua, de costas completamente expostas para a escuridão. Dois homens com máscaras táticas contornam o carro por trás e disparam rajadas de fuzil. Os dois policiais morrem na hora. Os assassinos entram no carro e vão embora com calma, sem roubar nada. É claramente uma caçada planejada.

O caso explode de imediato dentro da polícia de Los Angeles. Todas as viaturas em patrulha na região entram em alerta máximo, e o comando ordena que cada carro tenha dois policiais: nenhuma patrulha individual é permitida.

Cena de Enquanto a Cidade Dorme

A chamada do turno da noite: o velho Ray e o novato

A história assume aqui o seu ponto de vista principal: a chamada do turno da noite na delegacia do 75º Distrito. A sala está cheia de policiais que acabaram de entrar no plantão, e ninguém tem mais o ar tranquilo de antes do ataque. O sargento lê a escala: Ray Mandel, um policial de rua com vinte e cinco anos de serviço, prestes a atingir a idade de aposentadoria, vai ficar esta noite com um novato recém-saído da academia, no primeiro dia de trabalho na rua.

O novato se chama Nick Holland. Tem pouco mais de vinte anos, cabelo curto, uniforme impecável e um olhar que mistura nervosismo e empolgação. Ele treinou em outra delegacia e hoje sai pela primeira vez em uma viatura.

Outro velho parceiro de Ray, Jack VanZandt, também está no grupo. Jack se aproxima animado, passa o braço pelo ombro de Ray e o parabeniza, meio de brincadeira, por “levar o recruta para a guerra” esta noite. Ray sorri, mas não diz muito mais. Eles saem juntos da delegacia, atravessam o estacionamento e Ray vai direto a um velho Crown Victoria de pintura descascada: a viatura que ele dirige há muitos anos. Nick senta pela primeira vez no banco do passageiro do carro velho, e a porta se fecha com um estrondo abafado, um som que vai se repetir 110 minutos depois, como ponto final do filme.

A patrulha começa: chamados de temperaturas diferentes

Ray dirige e Nick vai no banco do passageiro. A câmera alterna entre os dois. Ray fala pouco e não tem pressa. Na chamada, ele já havia passado a Nick as características dos assassinos e do carro suspeito. Nick, por sua vez, quer demais se mostrar e comenta tudo o que vê.

A primeira ocorrência é banal: um mendigo bêbado joga tijolos em uma viatura. Nick quer render o homem de cara, mas Ray o segura, conversa com o mendigo no tom mais calmo possível e acaba levando o homem sem incidentes. Para Nick, é uma pequena revelação: o policial da velha guarda não parte para a briga a cada problema, e sabe trocar tempo por espaço.

Depois vem um incêndio criminoso. Eles veem na beira da rua um carro abandonado, meio queimado, com a lataria enegrecida e soltando fumaça. Entre as cinzas, Ray identifica um pedaço de osso humano e fica sério. Não é um simples carro incendiado, é um homicídio: alguém queimou o veículo com uma pessoa dentro. Ray pede a Nick que avise pelo rádio, enquanto ele examina a cena em silêncio, sem chamar atenção.

Mais tarde, eles recebem uma denúncia de uma universitária dirigindo bêbada. Quando param o carro, a motorista é uma jovem rica, vestida na moda e visivelmente chapada de cocaína. Ela esconde uma arma sob a saia: “Meu pai me deu, para eu me defender”, explica sem se abalar, olhando de lado para os dois policiais. Ray a algema com habilidade, e Nick estende o saco de provas. É a primeira vez, desde que virou policial, que ele manuseia uma arma de verdade como evidência.

O parceiro corrupto: Jack e Stroke

O ponto em que o filme começa a virar para o lado sombrio é a entrada de Jack. Jack e seu novo parceiro, Stroke, interceptam um traficante na rua. Para “dar uma lição” nele, Jack manda o traficante tirar toda a roupa em plena via pública e o faz sentar nu no banco de trás da viatura, até a delegacia. O método viola qualquer protocolo, mas Jack não está nem aí.

Cena de Enquanto a Cidade Dorme

Ray e Nick chegam à cena, e Nick assiste a tudo com um olhar difícil de decifrar. Ray só diz a Jack, sem dar importância, que “pegue mais leve”, e leva Nick embora. De volta ao carro, Nick não se contém e pergunta: “Isso é permitido?” Ray não responde diretamente. Diz apenas: “Assim é o trabalho. Com o tempo você entende.”

Pouco depois, os dois atendem um casal com problemas psiquiátricos. A esposa está convencida de que o marido quer matá-la e se tranca no banheiro com uma faca. O marido, parado diante da porta, parece exausto e diz que “já está assim há anos”. Ray e Nick levam muito tempo para convencer a mulher a sair do banheiro e, no fim, a mandam para o hospital para uma avaliação psiquiátrica de 72 horas, como a lei exige. No rosto do marido, Nick vê uma desesperança e uma solidão tão profundas que parece enxergar de relance uma possível versão do seu próprio futuro, décadas adiante.

Christine e a menina presa em casa

A outra linha oculta desta noite é a história pessoal de Ray. O antigo parceiro dele morreu em uma operação anos atrás, e a viúva, Christine, ficou com uma filha. Com o tempo, Christine caiu no vício das drogas e se casou de novo, desta vez com um traficante. Para uma viciada, é um caminho ladeira abaixo quase inevitável.

Cena de Enquanto a Cidade Dorme

No meio da patrulha, Ray para o carro em um lugar fora da sua área. Ele bate à porta de Christine. Nick observa desconfiado do banco do passageiro. A porta se abre só uma fresta, e Christine aparece de roupão branco, com o rosto abatido como papel. Os dois trocam algumas palavras em voz baixa na varanda. Ray está ali como “velho amigo”, para ver como ela está, mas o que realmente o preocupa é a menina que cresce lá dentro.

Mais tarde, no carro, Ray conta a Nick essa história aos poucos. Ele diz que a menina é, na verdade, filha póstuma do seu companheiro de farda. Anos atrás, ele fez algo que não pode contar a ninguém: disse ao marido traficante de Christine que “essa criança é minha”, achando que isso ao menos faria o canalha pensar duas vezes. Deu o contrário. O marido descarregou todo o ressentimento na menina, e Christine, em plena crise de abstinência, não tem nenhuma condição de proteger a filha.

“Estou esperando uma oportunidade há muito tempo”, diz Ray. Só então Nick entende que o policial veterano trouxe seus assuntos pessoais para o trabalho nesta noite.

Os assassinos de policiais aparecem de novo

Os dois assassinos que emboscaram os policiais na abertura não desapareceram. Eles continuam aprontando na noite de Los Angeles. Desta vez, assaltam a mão armada um carro-forte de um banco. No canal da polícia chegam tiros frenéticos e pedidos de reforço.

Cena de Enquanto a Cidade Dorme

A viatura de Ray e Nick chega correndo à cena. Eles param no canto da rua e olham pelo para-brisa para a porta do banco, do outro lado. Dois homens mascarados trocam tiros com duas outras equipes de policiais, de um lado a outro da rua, e os clarões dos fuzis piscam no escuro. Pela primeira vez, Nick empunha a arma em um tiroteio de verdade, e a mão treme um pouco.

Ray dá um tapinha no joelho dele: “Quando eu sair do carro, você me cobre.” Dito isso, rola para fora da viatura e contorna o flanco dos assassinos. Nick segura a maçaneta da porta, respira fundo e vai atrás. O tiroteio de rua é filmado de forma muito curta e muito dura. Não há câmera lenta heroica, só as luzes giratórias das viaturas, o som do metal atravessando corpos e policiais feridos sendo arrastados pelos colegas para trás dos carros.

Resgate da menina

Logo depois que o tiroteio termina, o canal da polícia traz outra chamada urgente. Vizinhos ouviram uma menina gritando em uma casa e pedem que a polícia verifique. O endereço é o da casa de Christine.

O rosto de Ray muda na hora. Ele diz a Nick “vem comigo” e pisa fundo, e o Crown Victoria derrapa pela rua deserta. Ao chegar, Ray não bate: chuta a porta e entra.

A casa está um caos. O marido traficante de Christine está batendo em alguém no chão: uma menina de uns dez anos, encolhida no canto da parede, com o rosto coberto de sangue. A própria Christine desmaiou no sofá, com as pupilas dilatadas, depois de se injetar.

Cena de Enquanto a Cidade Dorme

Ao ver Ray, o traficante leva a mão instintivamente à arma na cintura. Ray não lhe dá a menor chance e o derruba com três tiros limpos: um tiro que ele esperava havia muitos anos. Nick, parado na porta, assiste a tudo. Quando Ray se agacha e pega a menina nos braços, Nick não diz nada. Ele entende que aquele tiro não foi só cumprimento da lei, nem só vingança pessoal. Ficou entre as duas coisas, e esse é exatamente o segredo que sustentou Ray por vinte e cinco anos.

Eles levam a menina ao hospital. No relatório, o caso fica registrado como “traficante resistiu à prisão, policial atirou em legítima defesa”, escrito pelo próprio Ray. Nick, calado no banco do passageiro, assina.

A captura dos assassinos de policiais

A história enfim volta aos dois assassinos do início. Depois de uma noite inteira de investigação, a polícia localiza o esconderijo deles em uma oficina mecânica decadente. Ray e Nick cercam o lugar junto com outras equipes.

O tiroteio não dura muito. Os dois assassinos resistem, mas, cercados por todos os lados, são mortos rapidamente. Ao ver os corpos, Ray apenas tira o chapéu com calma e enxuga o suor do rosto com a manga. O ciclo desta noite finalmente se fecha: o caso dos ataques a policiais está encerrado, e o turno deles também acabou.

O final: o som da porta do Crown Vic

No caminho de volta à delegacia, Nick, o que é raro, começa a falar. Ele pergunta a Ray por que ele ainda faz esse trabalho. Ray não responde, só baixa o vidro e deixa o vento frio entrar um pouco. O filme dá ao Crown Victoria um longo plano: a pintura descascada, o ronco cansado do V8 sob o capô. Ele, como o velho policial dentro dele, já rodou tempo demais por esta cidade.

“Você não vai lembrar de metade do que aconteceu esta noite”, diz Ray, por fim. “Mas a outra metade, você nunca vai esquecer.”

No estacionamento da delegacia, os dois descem, e a porta bate com um “pam”, a mesma porta e o mesmo som do início do filme. A imagem congela nas lanternas traseiras do velho Crown Victoria, e a noite em Los Angeles termina aqui.

O diretor Joel Souza não dá ao filme nenhum final emotivo: nada de medalha de herói, abraço de companheiros ou discurso. Sobram só uma viatura prestes a ser aposentada, um policial prestes a se aposentar e um novato que acabou de ver tudo isso. Uma noite é uma noite, e a cidade vai continuar enlouquecendo.