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A Ganha-Pão

Um percurso completo pela história de Parvana, que corta o cabelo e se disfarça depois da prisão do pai para sustentar a família e chega à prisão, em meio aos combates de Cabul, para ajudar a resgatá-lo.

Título

A Ganha-Pão

The Breadwinner

Ano / Duração

2017 · 94 minutos

Gênero

Drama / Animação / Família

Direção

Nora Twomey

Roteiro

Anita Doron

Avaliação

Elenco

Saara Chaudry (voz de Parvana / Atesh), Soma Chhaya (voz de Shauzia / Delowar), Ali Badshah (voz de Nurullah), Laara Sadiq (voz de Fattema), Shaista Latif (voz de Soraya), Kawa Ada (voz de Razaq), Noorin Gulamgaus (voz de Idrees / Sulayman)

Obra original

The Breadwinner, romance de Deborah Ellis

A Ganha-Pão
Uma menina de lenço na cabeça se encosta em um homem adulto, os dois diante de um prédio danificado Dois homens armados entram em um quarto na penumbra, e uma mulher com um bebê no colo os observa com cautela Duas mulheres de lenço verde-claro estão sentadas dentro de casa e olham para trás, inquietas Um idoso sentado em sua loja mexe uma panela grande, enquanto uma menina de rosto coberto observa de uma janela aberta Uma menina de cabelo comprido está sentada diante de uma parede com padrões escuros e olha para o lado em silêncio Uma criança de cabelo curto e gorro branco segura com as duas mãos uma blusa vermelha bordada
Aviso de spoilers: O texto a seguir conta a história inteira, as reviravoltas e o final. Você pode pular pelos capítulos até a parte que quer relembrar.

A Ganha-Pão é uma animação dramática de 2017, dirigida por Nora Twomey e escrita por Anita Doron, com a autora do romance original, Deborah Ellis, envolvida na adaptação da história para as telas. O filme é produzido pelo estúdio irlandês Cartoon Saloon, em coprodução entre Canadá, Irlanda e Luxemburgo. A história se passa em Cabul, em 2001, sob o domínio do Talibã: depois da prisão do pai, Parvana, de onze anos, é obrigada a cortar o cabelo e se disfarçar de menino para poder sair e comprar comida, trabalhar e procurar um jeito de chegar perto da prisão e resgatá-lo. O filme tem 94 minutos e conta com Angelina Jolie como produtora executiva.

Até 4 de agosto de 2026, o filme tem nota 7,7 no IMDb; no Rotten Tomatoes, o índice de aprovação é de 95%, o Popcornmeter do público chega a 88% e no Metacritic a pontuação é 78. O filme recebeu uma indicação ao Oscar de Melhor Animação na 90ª edição da premiação e ganhou o Annie de Melhor Longa de Animação Independente. Ele não trata a situação de Parvana como uma simples “aventura de disfarce”: mostra aos poucos como uma família perde a capacidade de agir diante de uma proibição institucional e como recupera uma pequena margem de escolha graças à leitura, ao trabalho e à ajuda mútua.

Além da trama principal, Parvana conta ao irmãozinho Zaki a história de um menino que desafia o rei elefante para recuperar as sementes. Essa fábula de cores vivas não é um intervalo de fuga da realidade: à medida que a crise na prisão se aproxima, ela vai acolhendo o trauma familiar que Parvana não consegue dizer de forma direta e se torna o ritmo que a mantém em ação em meio ao medo.

O conflito no mercado e a prisão do pai

Nurullah, pai de Parvana, foi professor e, depois de perder a perna esquerda na guerra soviético-afegã, só consegue montar uma banca no mercado. Ele vende os poucos objetos que restam à família e também lê e escreve cartas para quem não sabe fazê-lo. Parvana o acompanha, ajuda com as mercadorias e o escuta falar de Alexandre, o Grande, de Gengis Khan e dos governantes que se revezaram no Afeganistão. Para essa família, o conhecimento não é um enfeite abstrato, e sim a ferramenta que ainda permite ao pai ganhar algum dinheiro e manter a dignidade.

Uma menina de lenço na cabeça se encosta em um homem adulto, os dois diante de um prédio danificado

Idrees, antigo aluno do pai, já faz parte do Talibã. Diante da banca, ele repreende Parvana por se expor no mercado, e Nurullah defende a filha; é daí que nasce o confronto entre os dois. Naquela mesma noite, durante o jantar, Idrees invade a casa com homens armados e leva Nurullah, acusando-o de ter recebido educação estrangeira e de ter insultado o Talibã. Fattema, Soraya e as crianças não conseguem impedir, e a família perde naquele instante o único adulto homem autorizado a sair livremente.

Dois homens armados entram em um quarto na penumbra, e uma mulher com um bebê no colo os observa com cautela

Nurullah é preso em Pul-e-Charkhi. A prisão não é um mal-entendido que logo se resolve: a partir daí, cada decisão da família esbarra primeiro na proibição de sair sem a companhia de um homem.

A visita frustrada à prisão e a falta de comida em casa

Fattema vai a pé até a prisão com Parvana, esperando apelar com uma foto do marido. O guarda se recusa a ouvi-la, ainda a espanca por ter saído sem companhia masculina e ameaça prender as duas se aparecerem de novo. Parvana só consegue amparar a mãe ferida e levá-la para casa; elas não só não veem Nurullah como perdem a chance de implorar pessoalmente.

Duas mulheres de lenço verde-claro estão sentadas dentro de casa e olham para trás, inquietas

A comida em casa acaba depressa. Parvana tenta ir sozinha ao mercado comprar arroz, mas nenhum vendedor se atreve a vender algo a uma menina sem acompanhante masculino; alguém a persegue e, na fuga, ela perde a sacola de pano que a mãe lhe deu. O filme mostra o problema de forma muito concreta: não é que falte dinheiro à família nem que ela ignore onde há comida, e sim que uma mulher pode atrair punição, para si e para quem vende, só por concluir uma compra.

Um idoso sentado em sua loja mexe uma panela grande, enquanto uma menina de rosto coberto observa de uma janela aberta

Soraya cuida da mãe e do bebê Zaki, enquanto Parvana se lembra das roupas deixadas pelo irmão Sulayman, já falecido. O que realmente falta em casa não é alguém que trabalhe, e sim alguém que a rua possa tomar por um menino.

Cabelo cortado e o nome “Atesh”

Parvana decide cortar o cabelo comprido. Soraya a ajuda a completar o disfarce: ela veste a roupa do irmão, põe um gorro branco, passa a se chamar “Atesh” e diz a todos que é sobrinho de Nurullah. Essa identidade não muda quem ela é, mas muda de imediato o tratamento que recebe na rua: os vendedores aceitam lhe vender comida, os passantes deixam de perguntar por que anda sozinha e ela finalmente consegue levar alimento para casa.

Uma menina de cabelo comprido está sentada diante de uma parede com padrões escuros e olha para o lado em silêncio

Uma criança de cabelo curto e gorro branco segura com as duas mãos uma blusa vermelha bordada

Depois de conseguir comprar algo pela primeira vez, Parvana não está a salvo. Ela precisa controlar a voz, o jeito de andar e o olhar, e lembrar que identidade falsa usou em cada ocasião. A liberdade que o traje de menino lhe dá só existe enquanto ninguém a descobre; se a reconhecerem, o castigo que ela evitou cairá sobre ela junto com a acusação de “fraude”.

Shauzia e a vida na rua

No mercado, Parvana encontra Shauzia, uma antiga colega de escola, e descobre que ela também cortou o cabelo e vive com o nome “Delowar”. Shauzia conhece melhor do que ela as regras da rua: juntas, fazem recados para os comerciantes, carregam mercadoria, arrumam as bancas e aproveitam que sabem ler e escrever para redigir cartas e lê-las em voz alta em troca de dinheiro. Shauzia quer juntar dinheiro para fugir do controle do pai e conhecer o mar, que só imaginou; Parvana, por sua vez, transforma cada ganho em comida e no suborno de que precisa para visitar a prisão.

Duas crianças de gorro branco e roupas masculinas estão sentadas lado a lado diante de uma velha porta de madeira

Uma criança em roupas masculinas atravessa o mercado, e atrás dela alguém carrega um cesto pesado nas costas

A parceria das duas tem momentos leves, mas também diferenças constantes. Shauzia vê a fuga como um objetivo de longo prazo, enquanto Parvana não quer abandonar o pai, que continua preso. Ela chegou a tentar subornar o guarda, mas a quantia era pequena demais e ele a expulsou na hora. Então ela continua trabalhando, não porque a identidade de menino tenha resolvido o problema, e sim porque o preço de entrar na prisão foi recalculado para um valor mais alto.

A carta de Razaq e as aulas de leitura

Razaq, integrante do Talibã, leva uma carta para “Atesh” ler para ele. Ele não sabe ler, e a carta conta que a esposa, Hawa, morreu ao pisar numa mina a caminho do casamento da irmã. Ao ler a notícia, Parvana não o trata como se fosse igual a Idrees; e Razaq, mesmo de luto, não desconta a raiva na menina, mas lhe paga pelo favor. Mais tarde, ele continua procurando Parvana para que ela lhe ensine a reconhecer e escrever as letras.

Uma criança em roupas masculinas olha para uma mão estendida ao lado do mercado, segurando um papel e um objeto vermelho

Essa relação dá outro sentido a “saber ler e escrever” no filme. Nurullah ganha a vida com isso, Parvana conquista assim a confiança de um adulto com quem jamais poderia contar em outras circunstâncias, e Razaq, pela primeira vez, chega sem intermediários às palavras que a esposa deixou. Mais tarde, será justamente essa confiança mútua, nascida de uma má notícia, que permitirá entrar na prisão e tirar o pai de lá.

Trabalho pesado, Idrees e a identidade revelada

Para juntar o dinheiro o quanto antes, Parvana e Shauzia aceitam trabalhos pesados e mais perigosos. Elas vão até um terreno cheio de tanques abandonados para carregar materiais para um capataz. Idrees também está lá: ele zomba da falta de força dos dois “meninos”, empurra Parvana no chão e, ao ver os olhos dela de perto, reconhece que é a filha de Nurullah.

Duas crianças em roupas masculinas estão de pé junto a uma parede em ruínas e se olham com expressão séria

Duas crianças sobem em um tanque abandonado, cercado de mais destroços blindados

Parvana acerta Idrees com um tijolo e foge com Shauzia. Idrees as persegue, mas é chamado de repente para se juntar à guerra que já começou. O conflito que explode do lado de fora não elimina a ameaça sobre Parvana; apenas desvia quem a persegue para outra forma de violência. Depois de escapar da perseguição, as duas meninas combinam de se reencontrar algum dia; Shauzia chega a marcar a data para daqui a vinte anos. A despedida não oferece garantia nenhuma, mas deixa aberta a possibilidade de continuarem imaginando um futuro.

O casamento, a partida antecipada e a família separada

Enquanto isso, Fattema pede ajuda a parentes em Mazar-e Sarif. Eles aceitam acolher a família, com a condição de que Soraya entre em um casamento arranjado. Fattema aceita não uma vida ideal, mas o único abrigo que sobra quando a guerra se aproxima e a casa já não consegue sobreviver. Parvana concorda com a partida da família, mas insiste em ir antes à prisão contar ao pai o destino; ela acredita que os parentes de Razaq podem deixá-la entrar.

Uma criança de cabelo curto pega no colo, em casa, um bebê de roupa vermelha

O parente chega antes do combinado, alega que a estrada será bloqueada em breve e obriga Fattema, Soraya e Zaki a partirem primeiro, sem esperar Parvana. No caminho, Fattema finalmente se recusa a deixar que ele continue decidindo o destino da filha; o parente abandona Fattema, Soraya e Zaki na beira da estrada e vai embora sozinho. O filme não mostra o casamento arranjado como uma saída tranquila: a família se livra daquele parente, mas fica largada numa estrada deserta em meio à guerra, e Parvana nem sabe que eles já saíram de casa.

A prisão esvaziada e a verdade sobre a história de Sulayman

Parvana chega sozinha à frente da prisão e fica sabendo por Razaq que a guerra já mudou a ordem lá dentro. Os que podem lutar são levados, e os presos fracos correm o risco de execução. Os parentes de Razaq já entraram na guerra, mas ele decide entrar pessoalmente para procurar Nurullah. Parvana também admite a ele, pela primeira vez, que não é sobrinha de Nurullah, e sim filha.

Enquanto espera o pai, Parvana continua a história do rei elefante. Ela chama o menino da história de Sulayman e finalmente diz a realidade por trás desse nome: o irmão pegou na rua, anos antes, algo que parecia um brinquedo, mas era uma mina; a explosão lhe tirou a vida. O rei elefante, as sementes roubadas e as imagens de gerações de guerra dentro da história permitem a ela contornar a dor que não consegue tocar diretamente e trazer o irmão de volta à memória da família.

Um menino preso em fragmentos verdes luminosos, com três esqueletos ao redor

Razaq carrega nas costas Nurullah, fraco, para fora da cela e, no caminho, leva um tiro no ombro, mas ainda assim reúne pai e filha. Parvana traz um carrinho, sem esperar que a prisão recupere a ordem e sem olhar para trás à procura de Idrees; a única coisa que pode fazer é tirar o pai primeiro do lugar onde presos estão sendo executados.

O final

Parvana empurra o pai ferido pela noite. Nurullah continua fraco, mas recobra a consciência e retoma com a filha a história que ficou incompleta no começo do filme. Do outro lado, Fattema, Soraya e Zaki seguem pela estrada. O filme não mostra os dois grupos finalmente se reencontrando nem apresenta a vida depois da guerra como um problema resolvido; só deixa claro que pai e filha saíram da prisão, que a mãe não obedece mais àquele parente e que toda a família segue em direção a um possível reencontro.

Um homem adulto de barba desgrenhada está deitado no escuro e olha de olhos abertos para perto

O que fica no fim não é uma cena de vitória, e sim uma frase que Nurullah havia ensinado antes a Parvana: “Eleve suas palavras, não sua voz; é a chuva, e não o trovão, que faz as flores crescerem.” Parvana usa as histórias para acalmar o irmãozinho e lembrar o irmão mais velho, e consegue a ajuda de Razaq lendo cartas, escrevendo e revelando quem é de verdade. Ela se torna a “ganha-pão” não porque precise ocupar o lugar do pai, e sim porque, depois que todos os caminhos lhe foram impostos por outros, continua encontrando, uma vez após a outra, o passo seguinte guiada pelo próprio critério.