← Voltar ao início

Os Suspeitos

Duas meninas desaparecem e um pai desce ao mais escuro dos abismos: o enredo completo de Os Suspeitos, do sequestro no Dia de Ação de Graças à justiça com as próprias mãos de Keller, passando pela investigação do detetive Loki e pela verdade por trás da "guerra contra Deus" de Holly Jones, até o final aberto.

Título

Os Suspeitos

Prisoners

Também conhecido como: Raptadas (Portugal)

Ano / Duração

2013 · 153 minutos

Gênero

Drama / Crime / Mistério

Direção

Denis Villeneuve

Roteiro

Aaron Guzikowski

Avaliação

Elenco

Hugh Jackman, Jake Gyllenhaal, Viola Davis, Melissa Leo, Paul Dano

Prêmios

86º Oscar: indicado a Melhor Fotografia

Os Suspeitos
Cena 1 Cena 2 Cena 3 Cena 4 Cena 5
Aviso de spoilers: O texto a seguir conta a história inteira, as reviravoltas e o final. Você pode pular pelos capítulos até a parte que quer relembrar.

O desaparecimento no Dia de Ação de Graças

A história se passa numa cidadezinha fria da Pensilvânia. Keller Dover (Hugh Jackman) é um cristão devoto que toca uma pequena marcenaria. A família não é rica, mas leva uma vida estável. No Dia de Ação de Graças, os Dover vão almoçar na casa dos vizinhos, a família de Franklin Birch. Depois da refeição, as filhas pequenas das duas famílias, Anna Dover, de seis anos, e Joy Birch, saem para brincar, dizendo que vão até a casa de Anna procurar um apito vermelho que tinham perdido. Elas nunca mais voltam.

As duas famílias começam uma busca desesperada. Ralph, irmão de Anna, lembra que havia um trailer velho (RV) estacionado na rua e que as meninas tinham brincado perto dele. A polícia identifica o veículo rapidamente e o encontra naquela mesma noite. O motorista é um jovem com deficiência intelectual, Alex Jones (Paul Dano), que bate numa árvore ao tentar fugir e é preso.

Cena 1

A soltura do suspeito e o pai fora de controle

O detetive responsável pelo caso, David Loki (Jake Gyllenhaal), um policial que nunca deixou um caso sem solução, interroga Alex. Mas o nível intelectual de Alex equivale ao de uma criança de dez anos, e ele mal consegue dar respostas coerentes. A perícia não encontra DNA nem nenhuma outra prova dentro do trailer. Pela lei, a polícia precisa apresentar acusação ou soltar o suspeito em até 48 horas. Sem provas suficientes, Alex é solto.

Na noite da soltura, Keller intercepta Alex no estacionamento, e Alex murmura: “Elas só choraram um pouco e depois ficaram quietas.” A frase faz Keller perder de vez o controle. Mas Holly Jones (Melissa Leo), tutora de Alex e sua “tia”, leva o rapaz embora depressa, e a polícia considera que a frase não basta como prova.

Totalmente decepcionado com a polícia, Keller toma uma decisão extrema: encontra um prédio de apartamentos abandonado, sequestra Alex e o mantém preso em segredo, usando violência para obrigá-lo a dizer onde estão as meninas. Franklin, o vizinho, a princípio se opõe com firmeza, mas, diante do desespero e da pressão de Keller, acaba se tornando cúmplice. As esposas das duas famílias sofrem, mas, presas num dilema moral, não conseguem impedir nada.

Cena 2

A investigação de Loki: o símbolo do labirinto e os becos sem saída

Em paralelo à justiça com as próprias mãos de Keller, Loki investiga pelos canais oficiais e segue cada pista.

Primeiro, encontra no porão do padre local, Patrick Dunn, um cadáver em decomposição havia anos. O padre afirma que o homem foi se confessar, admitiu ter matado várias crianças, e que ele o matou por isso. O cadáver usa no pescoço um pingente em forma de labirinto, símbolo que reaparece várias vezes no restante da investigação.

Loki chega então a outro suspeito, Bob Taylor, de comportamento extremamente estranho: a casa dele está cheia de desenhos de labirintos e caixas com sangue de porco, e ele já furtou roupas infantis numa loja. A polícia chega a achar que ele é o verdadeiro sequestrador, mas, durante o interrogatório, Taylor arranca a arma de um policial e se mata com um tiro. A investigação seguinte mostra que o próprio Taylor foi vítima de sequestro na infância e repete de forma compulsiva o que fizeram com ele, sem ser o verdadeiro culpado. Essa pista também termina num beco sem saída.

Cena 3

A justiça de Keller e o colapso moral

Do outro lado, Keller aplica em Alex, que continua preso, métodos cada vez mais cruéis: água fervente, longos períodos de confinamento, surras repetidas. Com o passar dos dias, Keller deixa de parecer um pai desesperado e se torna cada vez mais um torturador. Sob tortura, Alex solta frases confusas, sobre o labirinto, sobre “se tornar invisível”, e chega a dizer “eu não sou o Alex”, o que sugere que ele talvez viva sob uma identidade falsa. Mas Keller não consegue montar nada de útil com esses fragmentos.

O resgate de Joy e a virada nas pistas

O caso ganha a primeira grande reviravolta: Joy é encontrada. Ela aparece sozinha na rua, fraca e desorientada, com sinais evidentes de ter sido drogada. Levada ao hospital, vai se recuperando aos poucos, mas só consegue passar informações de forma entrecortada. Ela diz que ficou presa num lugar com muitos cômodos e descreve, de forma vaga, alguém que lhe dava remédio para beber.

Quando Loki vai visitar Joy, ela vê o rosto de Keller e fica de repente apavorada, porque Keller tinha estado perto do lugar onde ela foi mantida presa. A partir daí, Loki passa a suspeitar que Keller está envolvido. Ao mesmo tempo, alguns detalhes do depoimento de Joy apontam para uma direção inesperada.

Cena 4

A verdade revelada: Holly Jones e a “guerra contra Deus”

Todas as pistas convergem para uma única pessoa: Holly Jones, a “tia” de Alex.

Holly e o marido, já falecido, eram cristãos devotos. Anos antes, o único filho biológico deles morreu de câncer. A perda destruiu por completo a fé do casal. Eles começaram então uma insana “guerra contra Deus”: sequestravam filhos de outras famílias para que mais pais perdessem a fé e mergulhassem no desespero. Na lógica distorcida deles, cada pai que questionava Deus depois de perder um filho era mais uma vitória na “guerra”. Nem todas as crianças sequestradas sobreviveram.

O verdadeiro nome de Alex é Barry Milland. Ele foi uma das primeiras crianças que o casal sequestrou anos antes. O cativeiro prolongado e a destruição psicológica o deixaram com um grave retrocesso intelectual, e os dois acabaram ficando com ele como uma espécie de “filho adotivo”. O cadáver do porão do padre, o que usava o pingente de labirinto, é justamente o marido de Holly: um dia ele procurou o padre para se confessar, e o padre, ao descobrir a verdade, o matou. Depois da morte do marido, Holly continuou o crime sozinha.

No meio da própria investigação, Keller chega à casa de Holly, mas ela age primeiro: droga Keller até deixá-lo imobilizado e o joga num buraco no chão, sob um carro no quintal da casa, exatamente como fazia com as crianças sequestradas.

O final: o resgate, o tiro e o apito

Loki junta todas as pistas, a descrição de Joy, a origem do pingente de labirinto, os vestígios de sedativos perto da casa de Holly, e por fim identifica Holly como a verdadeira culpada. Quando chega à casa dela, Holly está prestes a fugir com Anna. No confronto, Holly atira em Loki, mas ele, gravemente ferido, consegue matá-la com um tiro e encontra dentro da casa Anna, drogada e inconsciente, mas viva. Anna é levada às pressas para o hospital e acaba se reencontrando com a família. Alex (Barry Milland) também é resgatado e retoma contato com seus verdadeiros parentes.

Cena 5

Mas Keller continua desaparecido.

A polícia faz uma busca em larga escala na propriedade de Holly, e os investigadores vão se retirando aos poucos. Quando Loki faz uma última verificação no local, tudo já está em silêncio. É então que ele ouve um som quase imperceptível: um apito, vindo de baixo da terra. É o mesmo apito vermelho que Anna perdeu no começo do filme, agora nas mãos de Keller.

O filme termina de repente. Loki para e aguça o ouvido. A tela escurece.

O diretor Villeneuve opta deliberadamente por não dar uma resposta definitiva. Segundo o roteirista, a equipe chegou a filmar um final explícito em que Keller é resgatado, mas acabou escolhendo este desfecho aberto. Loki realmente chegou a ouvir o apito? Keller será resgatado? Um homem que “julgou” os outros com as próprias mãos acaba, literalmente, como prisioneiro debaixo da terra: ele merece ser salvo? Todas essas perguntas ficam com o espectador.

Resenha breve

O título Os Suspeitos aponta para quase todos os personagens do filme: as crianças sequestradas são prisioneiras, Alex, trancado e torturado por Keller, é prisioneiro, o próprio Keller acaba literalmente prisioneiro, e também é prisioneiro quem quer que esteja preso ao medo, à raiva e à obsessão. A pergunta mais cruel do filme não é “quem é o culpado?”, e sim: até onde você iria para proteger seu filho quando o sistema falha? E, depois de ir longe demais, você continua sendo a mesma pessoa?