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A Improvável Viagem de Harold Fry

Um aposentado percorre 627 milhas a pé para completar o caminho emocional que não conseguia trilhar havia vinte anos: ao receber a carta de despedida de uma velha amiga à beira da morte, o aposentado Harold decide ir a pé do extremo sul ao extremo norte da Inglaterra para vê-la, e a viagem de 627 milhas o obriga a encarar o luto pela morte do filho e as rachaduras do casamento.

Título

A Improvável Viagem de Harold Fry

Harold Fry

Ano / Duração

2023 · 108 minutos

Gênero

Drama

Direção

Hettie Macdonald

Roteiro

Rachel Joyce

Avaliação

Elenco

Jim Broadbent, Penelope Wilton, Earl Cave, Linda Bassett

Obra original

The Unlikely Pilgrimage of Harold Fry, romance de Rachel Joyce

A Improvável Viagem de Harold Fry
Harold diante da caixa de correio, com a carta ainda não enviada na mão Harold caminha sozinho por uma estrada rural inglesa, com uma sacola de plástico na mão Harold e Maureen sentados lado a lado: perto no espaço, separados por um abismo Harold caminha por um vasto campo inglês, acompanhado de um cachorro que encontrou no caminho
Aviso de spoilers: O texto a seguir conta a história inteira, as reviravoltas e o final. Você pode pular pelos capítulos até a parte que quer relembrar.

Baseado no best-seller homônimo de Rachel Joyce, o filme estreou em 2023, com direção de Hettie Macdonald e Jim Broadbent e Penelope Wilton nos papéis principais. A seguir, a história completa do filme, com spoilers.

Uma aposentadoria sem vida

Harold Fry (Jim Broadbent) é um senhor de sessenta e cinco anos recém-aposentado que mora com a esposa, Maureen (Penelope Wilton), numa casinha em Kingsbridge, no condado de Devon, no sudoeste da Inglaterra. A vida dos dois é tão sem graça que parece parada: quase não conversam à mesa e, na sala, cada um se senta num canto, como dois estranhos sob o mesmo teto. Entre eles há, claramente, uma dor enorme que nenhum dos dois quer tocar.

Numa manhã, uma carta quebra esse silêncio. A remetente é Queenie Hennessy, ex-colega de trabalho com quem Harold não fala há vinte anos: com câncer, internada num hospício distante, o St. Bernadine, em Berwick-upon-Tweed, ela escreve para se despedir. Depois de ler, Harold senta na cozinha, escreve uma resposta curta e sai para postá-la.

Harold diante da caixa de correio, com a carta ainda não enviada na mão

Passando direto pela caixa de correio

Harold chega à caixa de correio vermelha da esquina com a resposta na mão, mas demora a colocá-la: acha que poucas linhas não bastam para responder à despedida de alguém prestes a morrer. Ele passa por essa caixa, depois por outra, e mais outra… até chegar a um posto de gasolina. Lá, uma jovem atendente, depois de ouvir a história dele, conta que uma tia teve câncer e que foram a fé e o incentivo dos outros que a ajudaram a resistir. A moça diz: “Você tem que ter fé.” A frase funciona como uma chave que abre uma fechadura emperrada havia muito tempo dentro de Harold. Ele toma então uma decisão que nem ele mesmo consegue explicar por completo: não vai enviar a carta, vai a pé ver Queenie. De Kingsbridge a Berwick, atravessando a Inglaterra de ponta a ponta: 627 milhas.

Ele liga para o hospício e pede à enfermeira que diga a Queenie: “Espere por mim, estou indo a pé. Enquanto ela esperar, eu continuo andando.”

Uma partida absurdamente precária

O equipamento de Harold é mínimo a ponto de ser absurdo: o velho casaco que veste, um par de sapatos náuticos e uma sacola de plástico com mantimentos comprados no caminho. Sem bengala, sem capa de chuva, sem mapa, nem sequer um par de botas de caminhada que sirva direito. E assim, do jeito que está, ele parte. Quando Maureen fica sabendo, sente preocupação e fúria ao mesmo tempo: está convencida de que ele enlouqueceu.

Harold caminha sozinho por uma estrada rural inglesa, com uma sacola de plástico na mão

Pelo caminho, os pés de Harold se enchem de bolhas que acabam estourando, e os músculos doem tanto que cada passo exige força de vontade. Ele anda na chuva, sob o sol forte, e dorme em bancos à beira da estrada. Mas não para. No percurso, cruza com todo tipo de desconhecido: uns lhe dão comida e abrigo, outros o acham fora de si, outros se comovem com a história dele. Cada vez que chega a um lugar novo, manda um cartão-postal para Queenie, informando onde está e incentivando-a a resistir até ele chegar. Os cartões parecem funcionar de verdade: do hospício chega a notícia de que o estado de Queenie se estabilizou.

O alvoroço dos “peregrinos”

A história de Harold logo chega à imprensa. Num bar, um jornalista disfarçado de cliente comum tira fotos dele e publica uma reportagem, e Harold vira da noite para o dia uma figura pública contra a vontade. Pouco depois, um rapaz de dezoito anos chamado Wilf o encontra e diz que a história o inspirou e que quer caminhar com ele. Wilf tem problemas com drogas, e a presença dele deixa Harold inquieto e comovido ao mesmo tempo: algo no garoto lembra o filho, David.

Conforme a imprensa continua cobrindo a história, cada vez mais gente entra na caminhada com barracas e cartazes, autointitulando-se “peregrinos”. Alguns se emocionam de verdade, outros só querem pegar carona na fama, e outros tratam aquilo como um evento social. O alvoroço logo abafa a sinceridade original de Harold, e a viagem perde o sentido. No fim, os seguidores se dispersam por motivos variados, e Wilf também vai embora. Harold volta a caminhar sozinho, desgrenhado, com as roupas em farrapos, como um mendigo, e é justamente essa a viagem de que ele realmente precisava.

David: o centro de toda a dor

Caminhar não desgasta só o corpo: também vai desenterrando, camada por camada, as lembranças que Harold guardava no fundo do peito. No caminho, ele começa a ter alucinações com o filho, David, e o passado volta à mente sem parar.

O próprio Harold teve uma infância infeliz: a mãe foi embora quando ele era muito pequeno, e o pai, um alcoólatra emocionalmente ausente, o expulsou de casa aos dezesseis anos. Criado nesse ambiente, Harold nunca aprendeu a demonstrar afeto. O filho, David (Earl Cave), foi um jovem inteligente e sensível, que chegou a estudar em Cambridge, mas sofreu durante anos com uma depressão profunda. Diante da dor de David, Harold escolheu o silêncio e a fuga, não porque não se importasse, mas porque simplesmente não sabia o que fazer, como acontecera com ele e o pai.

David acaba tirando a própria vida por enforcamento.

Harold e Maureen sentados lado a lado: perto no espaço, separados por um abismo

O golpe destrói por completo a relação entre Harold e Maureen. Ela atribui a morte do filho à frieza e à incapacidade de Harold e, embora continuem morando juntos, emocionalmente já são como estranhos. Harold carrega essa culpa indizível e segue vivendo em silêncio por vinte anos. Durante a caminhada, ele conta essa história a um dos companheiros de viagem: viu o filho piorar passo a passo sem poder fazer nada para impedir.

Queenie: quem carregou tudo no lugar dele

Conforme a caminhada avança, a verdadeira relação entre Queenie e Harold vem à tona, e vai muito além de “antigos colegas de trabalho”. Na época em que os dois trabalhavam na destilaria, a dor pela morte do filho levou Harold a se afogar na bebida, e ele cometeu um erro grave no trabalho pelo qual deveria ter sido demitido. Foi Queenie quem deu um passo à frente e assumiu toda a responsabilidade no lugar dele, o que lhe custou o próprio emprego. Esse gesto desinteressado salvou o emprego de Harold, mas também fez com que perdessem o contato desde então. A dívida de Harold com Queenie, assim como a culpa que sente por David, se torna algo que ele nunca terminará de pagar. Ele entende que Queenie fez por ele o que ele deveria ter feito pelo próprio filho e não fez: dar a cara a tapa e carregar o peso do outro.

Maureen: a outra viagem, em casa

O filme acompanha, em paralelo, a transformação de Maureen. Depois que Harold sai, ela fica sozinha em casa, tomada no começo pela raiva e pelo medo. Mas, com o passar do tempo, começa a olhar fotos antigas e a lembrar dos dias em que os dois se amavam, e do rosto sorridente de David criança. Aos poucos, compreende que descarregou toda a dor pela morte do filho em Harold, mas que essa dor nunca foi só dela: Harold também sofre, só que o sofrimento dele nunca faz barulho.

Maureen também admite um segredo enterrado havia anos: vinte e cinco anos antes, Queenie lhe pediu que transmitisse uma mensagem a Harold, e Maureen nunca a entregou. Esse silêncio tem alguma ligação com a morte de David e agravou a culpa que Harold carrega desde então. Maureen começa a escrever cartas para Harold, num tom que passa do sarcasmo inicial para a confissão e a compreensão. Enquanto Harold caminha em direção a Queenie, Maureen caminha, em casa, em direção ao exame de si mesma e à reconciliação.

O final: uma despedida tardia

Depois de uma longa travessia, Harold finalmente chega ao hospício St. Bernadine, em Berwick. Encontra Queenie, mas ela já está gravemente doente, sem conseguir falar, e talvez nem o reconheça. Harold senta ao lado da cama e diz tudo o que guardava havia vinte anos: agradece o sacrifício desinteressado dela e pede perdão pela própria covardia e pelo silêncio. Pouco depois, Queenie morre em paz.

Maureen também chega a Berwick. Harold confessa que se sente um fracassado: não entende como pôde achar que caminhar salvaria Queenie, se nem ao próprio filho conseguiu salvar. Maureen responde que essa teimosia e essa dedicação a Queenie, ao contrário, a fizeram lembrar do homem por quem se apaixonou, e que o gesto dele salvou o casamento.

Harold caminha por um vasto campo inglês, acompanhado de um cachorro que encontrou no caminho

No fim do filme, aqueles desconhecidos que a história de Harold comoveu durante a viagem veem, cada um na própria vida, o sol entrar, e sorriem. Harold e Maureen caminham juntos até o mar, tiram os sapatos como faziam muitos anos antes, entram na água de mãos dadas e riem. É a primeira reconciliação de verdade desde a morte de David.

O final

Este não é um filme de milagres. No fim das 627 milhas, Queenie morre do mesmo jeito, e David nunca vai voltar. Mas, ao caminhar, Harold finalmente deixa de fugir: já não foge do fracasso como pai, nem da dívida com Queenie, e por fim encontra coragem para olhar Maureen de frente outra vez. Há caminhos que não existem para chegar a algum destino, mas para, ao percorrê-los, desatar aqueles nós do coração que sempre contornamos sem tocar.