That Person Has Disappeared
Cinco reviravoltas e a aventura de um entregador: uma análise detalhada da estrutura de reviravoltas de That Person Has Disappeared, do terror sobrenatural ao mistério cômico e ao final de arrancar lágrimas, com as relações entre os personagens, as pistas-chave e a verdade do desfecho.
Título
That Person Has Disappeared
Ano / Duração
2024 · 104 minutos
Gênero
Drama / Mistério
Direção
Itaru Mizuno
Roteiro
Itaru Mizuno
Avaliação
Elenco
Fumiya Takahashi, Kei Tanaka, Tomoya Nakamura, Rinko Kikuchi, Shôta Sometani
Um prédio que “devora” gente
A história planta o mistério logo na abertura. Em um corredor na penumbra, uma mulher volta correndo para o apartamento 203. A luz apaga de repente e acende de novo, e ela some sem deixar rastro, só com um batom partido ao meio. O prédio tem fama de lenda urbana: dizem que “os moradores desaparecem um após o outro”. O comportamento dos moradores sempre tem algo difícil de explicar: uns só recebem encomendas de madrugada, outros quase nunca aparecem, e outros constam nos registros de entrega, mas quase ninguém os vê.
O jovem entregador Maruko Mukuro (Fumiya Takahashi) é designado para a rota deste “prédio dos desaparecidos”. Ele é introvertido e leva uma vida monótona. Todo dia repete de forma mecânica o mesmo ciclo de entregar, coletar a assinatura e ir embora. Seu único refúgio é uma novela web chamada Espião Reencarnado, da qual é leitor fiel. Para ele, é só mais um trabalho comum, mas esse prédio está prestes a mudar por completo a sua vida entorpecida.

Primeira camada: terror sobrenatural, com a ídola morando ao lado
A virada começa quando Maruko descobre, por acaso, que Komiya Chihiro, autora de Espião Reencarnado, mora no apartamento 205. Ele ainda comemora a sorte de ter a ídola como vizinha quando coisas estranhas começam a acontecer. Um desconhecido chamado Shimazaki (Shôta Sometani) aparece no prédio e puxa a porta de Komiya com desespero. Os relatos dos vizinhos aumentam o medo: alguém viu uma mulher coberta de sangue, outro viu Shimazaki arrastando uma pessoa desmaiada.
Na primeira metade, o diretor Itaru Mizuno cria de propósito uma atmosfera de terror em espaço fechado. Os planos longos no corredor, a luz que escapa pela fresta da porta e a visão limitada dentro do elevador levam o público, junto com Maruko, à primeira conclusão: talvez exista mesmo uma força sobrenatural “devorando” os moradores do prédio. O que mais inquieta Maruko é que a novela de Komiya para de ser atualizada de repente e ela some por completo.

Segunda camada: comédia exagerada, com o entregador virando detetive
Arakawa (Kei Tanaka), colega de trabalho de Maruko, tem uma imaginação sem limites. Ao saber das esquisitices do prédio, ele propõe na hora todo tipo de explicação sobrenatural, e os dois começam, muito sérios, uma investigação amadora. Aqui o tom muda de repente, de filme de terror para comédia. Dois trabalhadores comuns juntam provas e analisam pistas no prédio com ar de profissionais. As teorias absurdas de Arakawa e as reações exageradas de Maruko rendem muitas risadas.
A polícia não ajuda, e Maruko decide investigar sozinho o paradeiro de Komiya. Ele conversa com vários moradores e recebe várias versões do mesmo fato. Sobre os moradores que “desapareceram”, A diz que foram levados no meio da noite, B diz que se mudaram em silêncio por conta própria, e C afirma que nunca viu essa pessoa. Ninguém mente, mas cada um conta só uma parte da verdade, e o quadro que se forma é completamente diferente.

Terceira camada: a reviravolta dos infiltrados, em que ninguém é quem diz ser
Maruko está mergulhado na investigação confusa quando o filme joga uma bomba. Shimazaki primeiro diz que filma um programa sobre fenômenos paranormais, e a polícia revela que o prédio já teve casos de desaparecimento. Logo depois, Komiya Chihiro e Shimazaki aparecem de repente e revelam a identidade verdadeira: dizem ser policiais infiltrados, que entraram no prédio para caçar um terrorista escondido entre os moradores.
A reviravolta dá de imediato uma nova explicação para todo o “comportamento estranho” anterior: alguns moradores não escondiam um crime, mas colaboravam com a investigação ou tentavam se proteger. Maruko achava que era o único investigando, mas na verdade era só o último a saber dentro de uma rede de investigações. A tensão diminui, o mal-entendido parece resolvido, e o público se prepara para respirar aliviado.
Quarta camada: すべてうそ, “tudo é mentira”
Mas Maruko ainda guarda uma dúvida. Como leitor fiel de Espião Reencarnado, ele nota algo estranho nos nomes dos personagens da novela. Quando junta as iniciais desses nomes, forma uma frase em japonês: “すべてうそ”, que significa “tudo é mentira”.
Komiya não escolheu os nomes ao acaso. Ela os usou para mandar um pedido de socorro em segredo. A identidade de “policiais infiltrados” e a história do terrorista foram todas inventadas. O perigo de verdade nunca foi embora. Essa camada derruba todas as explicações razoáveis construídas até aqui. O público e Maruko foram levados por uma mentira bem tecida durante a maior parte do filme.
Aqui o diretor faz um acerto de contas preciso com as pistas plantadas. Os detalhes da primeira metade, que pareciam só clima, como a ordem das assinaturas de entrega, as pausas curtas no corredor e um objeto que aparece de relance na porta, viram provas decisivas depois que a verdade vem à tona. Olhando para trás, percebe-se que a resposta estava ali desde o começo.

O final: um brilho de humanidade em um truque frio
Na fase final, as cores escurecem e o clima passa da comédia e do raciocínio para uma tensão e uma emoção de verdade. Conforme a verdade se revela camada por camada, o núcleo da história aparece: não é só um mistério para decifrar, mas a história de uma pessoa comum que, para proteger quem ama, enfrenta um perigo muito maior que as suas forças.
Maruko não é detetive nem policial, só um entregador viciado em uma novela. Mas, por causa do amor pela obra de Komiya e da atenção aos detalhes, ele se torna o único capaz de entender o pedido de socorro. No fim, quem parecia o herói menos provável salva, à sua maneira, a ídola em apuros.

Muitos espectadores descrevem o final como “um desfecho de anime romântico puro”. Depois de terror, absurdo e várias reviravoltas de embaralhar a mente, o diretor Itaru Mizuno entrega um final calorosamente inesperado. Sob o truque frio e as camadas de mentira, o que aparece no fim é um laço humano sincero. Até o último segundo é impossível distinguir a fronteira entre verdade e ficção, e, quando tudo se assenta, o que fica no coração não é medo, e sim emoção.
O experimento de mistura de gêneros de Itaru Mizuno
O ponto mais singular do filme é a mistura de gêneros. A abertura é de terror sobrenatural, o começo é uma comédia de amor não correspondido com ar exagerado, o meio é uma investigação amadora divertida, a segunda metade vira de repente um mistério sério de lógica rigorosa, e o final quebra a quarta parede para dar um fechamento cheio de carinho. Cinco estilos de gênero se alternam sem emendas em 114 minutos, e cada virada deixa o público sem saber o que vem a seguir.
O mais difícil é que essa mistura não é uma simples colagem. Cada fase de gênero planta pistas para as reviravoltas seguintes, e o acerto de contas das pistas encaixa com perfeição. Itaru Mizuno prova que a habilidade narrativa de Brush Up Life não foi acaso: ele sabe esconder uma estrutura precisa sob uma casca aparentemente leve e faz o público rir até chorar.