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À Meia Luz

Um marido usa luzes de gás que piscam e ruídos estranhos no sótão para fazer a esposa duvidar da própria sanidade: resumo completo da história de À Meia Luz (1944), clássico do suspense psicológico dirigido por George Cukor, que deu a Ingrid Bergman seu primeiro Oscar de Melhor Atriz, com o final e a verdade sobre as joias escondidas.

Título

À Meia Luz

Gaslight

Ano / Duração

1944 · 114 minutos

Gênero

Drama / Mistério / Suspense / Crime

Direção

George Cukor

Roteiro

John Van Druten / Walter Reisch / John L. Balderston

Avaliação

Elenco

Ingrid Bergman, Charles Boyer, Joseph Cotten, Angela Lansbury, May Whitty

Obra original

Adaptado da peça de teatro de 1938 Gas Light, de Patrick Hamilton

Prêmios

Oscar 1945: Melhor Atriz (Ingrid Bergman) e Melhor Direção de Arte em preto e branco

À Meia Luz
Paula, a criada Nancy e Gregory na sala do número 9 da Thornton Square Gregory observa Paula pelo espelho No concerto, Gregory "encontra" seu relógio de bolso dentro da bolsa de Paula O inspetor Cameron conversa a sós com Paula Bauer amarrado à cadeira do sótão, enquanto Paula se aproxima com uma faca na mão
Aviso de spoilers: O texto a seguir conta a história inteira, as reviravoltas e o final. Você pode pular pelos capítulos até a parte que quer relembrar.

À Meia Luz é um suspense psicológico produzido pela Metro-Goldwyn-Mayer em 1944, dirigido por George Cukor (Núpcias de Escândalo, Minha Bela Dama) e adaptado da peça de teatro de 1938 Gas Light, de Patrick Hamilton. O filme é o remake hollywoodiano da versão britânica de 1940, de mesmo nome, cujos negativos a MGM chegou a tentar destruir para garantir a exclusividade da distribuição.

O elenco principal reúne três estrelas: Charles Boyer interpreta Gregory Anton, o marido de aparência gentil, mas calculista; Ingrid Bergman vive Paula, a esposa empurrada passo a passo para a beira da loucura; e Joseph Cotten faz o inspetor da Scotland Yard Brian Cameron. Angela Lansbury, então com 17 anos, estreia no cinema como a criada Nancy e recebe por esse papel uma indicação ao Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante.

O filme recebe sete indicações ao Oscar e leva dois prêmios: Melhor Atriz (o primeiro Oscar de Bergman) e Melhor Direção de Arte em preto e branco. Tem nota 7,8 no IMDb. O termo “gaslighting” (manipulação à luz de gás) nasce justamente deste filme e hoje é de uso comum na psicologia e na sociologia, para descrever a manipulação que nega algo de forma contínua e distorce os fatos, até que a vítima duvide da própria percepção e sanidade.

O assassinato inacabado no sótão

A história começa na Londres vitoriana de 1875. A famosa cantora de ópera Alice Alquist é estrangulada em sua casa, no número 9 da Thornton Square, e o assassino nunca é preso. A sobrinha pequena, Paula Alquist, é a primeira a encontrar o corpo naquela noite, mas é nova demais para ver o rosto do agressor. Em vida, Alice tinha recebido da família real britânica um valioso conjunto de joias, e a polícia revista a casa inteira sem nunca descobrir onde elas estão.

Depois da morte da tia, Paula é enviada à Itália para estudar canto com o mestre que formou Alice, na esperança de seguir a carreira da tia na ópera. Anos depois, numa aula de canto, Paula se apaixona pelo pianista que a acompanha, Gregory Anton. Após um romance-relâmpago de apenas duas semanas, os dois se casam. Durante a lua de mel, Gregory convence Paula a voltar a Londres e morar na casa da tia, vazia há anos: ele insiste que esse é o lar que lhes pertence.

Paula, a criada Nancy e Gregory na sala do número 9 da Thornton Square

Os fatos estranhos no número 9 da Thornton Square

Depois que o casal se instala no número 9 da Thornton Square, Paula não consegue tirar da cabeça a sombra da morte da tia. Gregory propõe levar para o sótão todos os móveis, figurinos e objetos pessoais de Alice e lacrá-lo, para que Paula não precise olhar para eles.

Um dia, entre as coisas da tia, Paula encontra uma carta endereçada a Alice e assinada por Sergis Bauer. Ela mostra a carta a Gregory, que reage de forma violenta demais e logo em seguida pede desculpas. Pouco depois, Gregory contrata uma jovem criada, Nancy Oliver, e avisa na frente de Paula que ela deve seguir apenas as instruções dele, pois não é preciso levar a sério a esposa, que está “com os nervos à flor da pele”.

A partir daí, começa uma série de acontecimentos estranhos. Num passeio à Torre de Londres, Gregory guarda na bolsa de Paula um broche de família que acabou de lhe dar, mas, ao chegar em casa, o broche sumiu; ele a acusa de ser descuidada. Os quadros das paredes desaparecem um após o outro, e Paula os encontra escondidos em cantos esquisitos; Gregory insiste que foi ela mesma quem os tirou e depois esqueceu. Toda vez que Gregory sai, o sótão lacrado deixa ouvir passos e barulho de objetos sendo arrastados, sem explicação; ao mesmo tempo, as luzes de gás da casa inteira enfraquecem sem aviso e depois voltam a acender sozinhas. Paula conta essas anomalias a Gregory, mas ele diz que são alucinações auditivas e visuais, e que ela deveria descansar mais.

Gregory observa Paula pelo espelho

A cena pública do relógio “roubado”

Gregory começa a cortar de forma sistemática os laços de Paula com o mundo exterior. Ele não a deixa sair sozinha nem receber visitas, e diz a todos que a esposa está instável e não deve ver estranhos. Elizabeth Tompkins, a velha e leal criada da casa, percebe que Paula sofre injustamente, mas recebe ordem de não dizer nada. Nancy, jovem e bonita, é abertamente insolente com a patroa, com o consentimento tácito de Gregory, e troca olhares com frequência com o “patrão”, o que aumenta ainda mais o peso que Paula carrega.

Paula tem uma velha amiga da família, Bessie Thwaites, amiga da tia Alice. Bessie organiza um pequeno concerto particular em sua casa e convida Paula e Gregory. Paula consegue com dificuldade essa permissão para sair. No meio da noite, Gregory anuncia de repente, diante de todos, que perdeu seu relógio de bolso e o “encontra” dentro da bolsa de Paula. Ela desaba em lágrimas na frente de todos, e os convidados assistem ao colapso da esposa que o marido descreveu como “mentalmente perturbada”.

No concerto, Gregory "encontra" seu relógio de bolso dentro da bolsa de Paula

No caminho de volta, depois de levá-la à força para casa, Gregory dá o golpe mais duro: diz a Paula que a mãe dela morreu num manicômio e que a loucura corre em seu sangue. Quanto à carta de Sergis Bauer que ela encontrou, nunca existiu; foi só fruto da imaginação dela. Bombardeada sem parar pelo marido, Paula passa a duvidar de verdade da própria sanidade.

O caso antigo do inspetor Cameron

Entre os convidados daquele concerto há alguém que presta atenção especial ao estado de Paula: o inspetor da Scotland Yard Brian Cameron. Na adolescência, Cameron era fã fervoroso da falecida cantora Alice Alquist e, já adulto, entra para a polícia; o caso sem solução de Alice nunca deixa de inquietá-lo. Depois de esbarrar por acaso na rua com Paula, que lembra muito a tia, ele decide reabrir o caso arquivado.

Cameron examina os arquivos antigos e descobre uma pista fundamental que a polícia da época não incluiu na lista: a família real britânica tinha dado a Alice um conjunto de joias que, depois do crime, sumiu sem que o assassino as tivesse levado. Cameron então manda um policial vigiar Gregory discretamente. O policial nota que Gregory visita com frequência a velha casa vazia ao lado e, além disso, arranca informações da exibida Nancy: Gregory está providenciando a internação de Paula num manicômio.

O inspetor Cameron conversa a sós com Paula

Aproveitando que Gregory saiu de novo, Cameron bate à porta do número 9 da Thornton Square e enfrenta Paula a sós pela primeira vez. Ele confirma que os passos no sótão são reais, e que as luzes de gás que piscam também são. A partir das observações do policial, ele deduz que toda noite Gregory sobe da casa vazia ao lado até o telhado e entra no próprio sótão por uma claraboia, para revirar os pertences de Alice atrás das joias desaparecidas. A casa inteira compartilha o mesmo encanamento de gás, então, toda vez que Gregory acende as luzes do sótão, parte do gás das luzes de baixo é desviada, e é por isso que elas enfraquecem.

Cameron arromba a escrivaninha trancada de Gregory, e Paula encontra de novo na gaveta a carta de Sergis Bauer: ela não está louca, a carta sempre foi real. Cameron revela a verdade: o marido dela, “Gregory Anton”, é na verdade Sergis Bauer. Foi Bauer quem matou Alice anos antes; ele entrou no número 9 da Thornton Square para levar as joias reais de Alice, mas a aparição da pequena Paula interrompeu a busca. Anos depois, sob o nome falso de Gregory Anton, ele se aproximou de propósito de Paula, a herdeira de Alice, seduziu-a e casou-se com ela com o único fim de se instalar legalmente na casa e continuar procurando as joias; o passo seguinte era internar a esposa num manicômio para ficar com toda a herança de Alice.

O final

Justo quando Cameron revela a verdade no andar de baixo, Bauer encontra por fim, no sótão, as joias escondidas por tantos anos: elas estão costuradas, fio a fio, no corpete de um dos figurinos de palco mais famosos de Alice, pendurado à vista de todos.

Bauer desce com o figurino até o escritório e descobre que forçaram sua gaveta. Ele interroga Paula, já no limite das forças: quem esteve aqui? Paula deixa escapar que um inspetor entrou na casa. Para proteger a patroa, a idosa cozinheira Elizabeth garante a Bauer, na cara dele, que ninguém veio e que é só mais uma alucinação de Paula, empurrando-a de novo à beira do colapso justo quando ela começava a recuperar o terreno perdido.

Nesse instante, Cameron aparece, enfrenta Bauer e o persegue até o sótão. Depois de uma luta, amarra-o com firmeza a uma cadeira para esperar a chegada dos colegas que vão prendê-lo. Paula, já livre do medo e plenamente convencida da própria sanidade, pede a Cameron que a deixe ficar alguns minutos a sós com o que foi seu “marido”.

Bauer amarrado à cadeira do sótão, enquanto Paula se aproxima com uma faca na mão

Paula entra no sótão. Bauer, amarrado à cadeira, implora que ela procure uma faca na gaveta para cortar as cordas e deixá-lo fugir. Paula vai até essa mesma gaveta e remexe, mas não tira faca nenhuma; em vez disso, tira do fundo o broche de família “perdido” com o qual o marido a acusara de roubo. Ela volta até Bauer com o broche na mão e, em tom sereno, zomba do homem que a empurrou para a loucura, dizendo que enfim enxerga tudo com clareza: nunca esteve louca, jamais esteve.

A polícia sobe e leva Bauer. Cameron fica para acompanhar Paula e diz que espera poder visitá-la outra vez.