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Cela 211

Um carcereiro novato se passa por preso durante uma rebelião e acaba indo mais longe do que os verdadeiros criminosos: o enredo completo de Cela 211, vencedor de oito Prêmios Goya, a história de como uma rebelião numa prisão empurra um homem bom para o abismo

Título

Cela 211

Celda 211

Ano / Duração

2009 · 113 minutos

Gênero

Drama / Ação

Direção

Daniel Monzón

Roteiro

Daniel Monzón / Jorge Guerricaechevarría

Avaliação

Elenco

Luis Tosar, Alberto Ammann, Antonio Resines, Marta Etura, Carlos Bardem

Prêmios

Prêmio Goya 2010: Melhor Filme, Melhor Diretor e Melhor Ator, entre oito prêmios no total

Cela 211
Malamadre está em pé entre os presos rebelados, todos com os braços erguidos Malamadre anda pelo corredor da prisão com um walkie-talkie, seguido por vários presos Elena aparece na multidão aglomerada do lado de fora da prisão Do lado de fora da prisão, a tropa de choque se choca com a multidão de familiares Juan e Malamadre estão em pé, lado a lado
Aviso de spoilers: O texto a seguir conta a história inteira, as reviravoltas e o final. Você pode pular pelos capítulos até a parte que quer relembrar.

A cela 211

O filme abre com um plano silencioso. Numa cela vazia, há uma cruz tosca e uma lápide desenhadas na parede. Um preso com câncer, sem tratamento por muito tempo, corta os pulsos e morre nessa cela. O número da cela é 211.

Essa morte funciona como um pavio que acende a raiva reprimida dos presos.

Malamadre está em pé entre os presos rebelados, todos com os braços erguidos

O primeiro dia de trabalho

Juan Oliver (Alberto Ammann) é um carcereiro recém-contratado. Para causar boa impressão nos superiores, ele decide chegar à prisão um dia antes para conhecer as instalações. Sua esposa, Elena (Marta Etura), já está grávida, e os dois esperam com ansiedade a nova vida.

Quando Juan chega à prisão, vários carcereiros veteranos o levam para conhecer o lugar. Ao passar por um corredor em mau estado, um bloco de concreto se solta do teto e cai na cabeça de Juan, que desmaia na hora.

Os colegas, sem saber o que fazer, o colocam às pressas na cela vazia mais próxima: justamente a cela 211. Eles vão buscar uma maca, mas é nesse momento que a rebelião explode.

O líder dos presos, “Malamadre” (Luis Tosar) — um homem careca, coberto de tatuagens e com um olhar feroz —, comanda os detentos, rende os carcereiros que faziam a ronda e toma o controle de toda a prisão em poucos minutos. Os carcereiros recuam em debandada e, no meio do caos, esquecem Juan, desmaiado, dentro da cela 211.

A farsa

Quando Juan acorda, ele se vê no meio de um pesadelo. O corredor está cheio de presos rebelados e o portão principal está trancado. Ele veste roupas comuns — como ainda não começou a trabalhar oficialmente, não está de uniforme.

O instinto de sobrevivência leva Juan a tomar uma decisão em poucos segundos: fingir ser um preso recém-chegado.

Ele esconde seus documentos e inventa uma história: diz estar preso por homicídio. Os presos não desconfiam de nada — no meio do caos, ninguém se dá ao trabalho de verificar a origem de um rosto novo. Juan logo chama a atenção de Malamadre, que percebe que esse rapaz tem a cabeça no lugar e fala com desenvoltura, muito mais útil do que os presos que só sabem quebrar tudo.

Malamadre anda pelo corredor da prisão com um walkie-talkie, seguido por vários presos

A negociação

A rebelião começa como protesto dos presos contra as péssimas condições de encarceramento: falta de atendimento médico, comida ruim, tratamento brutal por parte dos carcereiros. Mas a situação escala rápido: Malamadre descobre que há na prisão três membros do ETA (a organização terrorista separatista basca), todos com penas de mais de cem anos. Malamadre os toma como reféns para pressionar o governo a aceitar as exigências dos presos.

Isso complica enormemente as coisas. Existe um delicado equilíbrio político entre o governo espanhol e o ETA, e, se algo acontecer a esses três presos dentro da prisão, uma crise política de enormes proporções será desencadeada. O GEO, a unidade de operações especiais, já está de prontidão do lado de fora da prisão, mas a ordem vinda de cima é terminante: não invadir.

Graças ao seu conhecimento do sistema prisional — afinal, ele é carcereiro —, Juan começa a aconselhar Malamadre: sugere fazer exigências razoáveis e aceitáveis, em vez de pedir o impossível. Malamadre confia cada vez mais nele.

Enquanto isso, do lado de fora também reina o caos. Depois que a mídia noticia a rebelião, os familiares dos presos chegam em massa e se concentram diante dos portões da prisão, exigindo saber se seus entes queridos estão bem.

O infiltrado

Dentro da prisão se esconde outra figura-chave: Apache (Carlos Bardem), um preso brutal que também é informante infiltrado pela direção da prisão. Na aparência, Apache é o braço direito de Malamadre, mas na verdade passa informações para fora em segredo o tempo todo.

Entre Juan e Apache surge uma tensão perigosa. Apache intui vagamente que Juan não é um preso qualquer, e Juan, por sua vez, percebe que o comportamento de Apache é suspeito. Os dois “infiltrados” se testam mutuamente no turbilhão da rebelião, sabendo que a qualquer momento o outro pode descobri-los.

Elena aparece na multidão aglomerada do lado de fora da prisão

Elena

O que mais preocupa Juan é a esposa grávida. Ele não tem como contatar ninguém do lado de fora e só pode procurar às escondidas alguma chance de se comunicar no meio da rebelião.

Ao saber da rebelião na prisão, Elena corre para lá sem pensar duas vezes. Ela espera do lado de fora junto com outros familiares, aflita, tentando descobrir algo sobre o marido.

O chefe dos carcereiros, Utrilla (Antonio Resines), ordena a dispersão da multidão reunida. A tropa de choque usa gás lacrimogêneo e cassetetes contra os familiares. No meio do caos, Elena, grávida, é derrubada pelos carcereiros e fica gravemente ferida.

Do lado de fora da prisão, a tropa de choque se choca com a multidão de familiares

Cruzar a linha

Malamadre consegue, por meio da negociação, que lhe tragam uma televisão. Quando o noticiário mostra as imagens da polícia espancando os familiares, Juan vê na tela a própria esposa caída numa poça de sangue.

Pouco depois chega uma notícia ainda mais cruel: nem Elena nem o filho que ela carregava no ventre sobreviveram.

Juan desmorona por completo.

Nesse instante, tudo muda. Ele já não é o infiltrado que tentava sobreviver e sair com vida. A morte da esposa e do filho faz nascer nele um ódio profundo pelos “seus” — os colegas e o sistema que deveriam protegê-lo. Ele se joga sobre Utrilla e o mata com as próprias mãos: foi ele quem deu a ordem de bater nos familiares.

Juan arrasta o cadáver de Utrilla até a janela de negociação e o mostra aos funcionários do governo, exigindo que anunciem publicamente pela televisão que aceitam as condições dos presos, sem promessas vazias.

Ele já não está atuando. Ficou de verdade do lado dos presos.

Juan e Malamadre estão em pé, lado a lado

O final

O governo percebe que Juan saiu do controle e decide acabar com a rebelião custe o que custar. Eles contatam o infiltrado Apache e prometem uma redução de pena em troca de sua colaboração quando a invasão chegar.

O GEO lança o ataque. A prisão se transforma num campo de batalha.

No caos final, Apache apunhala Juan pelas costas e, ao mesmo tempo, fere gravemente Malamadre. Juan cai no chão da cela 211, o mesmo lugar onde acordou no início.

Malamadre é resgatado e sobrevive, mas no fim precisa encarar a realidade: Juan — a pessoa em quem mais confiava — era, desde o começo, um carcereiro. E, por uma amarga ironia, foi a crueldade do próprio sistema que empurrou esse carcereiro a um extremo mais radical do que o de qualquer preso.

Juan, sua esposa e seu filho por nascer — as três vidas de uma família comum — acabam sendo o sacrifício mais insignificante nesse jogo de poder. Ele só tinha chegado um dia antes ao trabalho para causar boa impressão nos superiores.