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Um Elefante Sentado Quieto

Em Manzhouli há um elefante que fica ali sentado, e só: quatro pessoas sem saída procuram, ao longo de um dia interminável, uma escapatória que talvez nem exista

Título

Um Elefante Sentado Quieto

An Elephant Sitting Still

Ano / Duração

2018 · 234 minutos

Gênero

Drama

Direção

Bo Hu

Roteiro

Bo Hu

Avaliação

Elenco

Yuchang Peng, Yu Zhang, Uvin Wang, Zi Xi

Obra original

Conto homônimo da coletânea Da Lie (Huge Crack), de Bo Hu

Prêmios

55º Golden Horse Awards: Melhor Filme; 68º Festival de Berlim: mostra Fórum; 42º Festival Internacional de Cinema de Hong Kong: Prêmio do Público

Um Elefante Sentado Quieto
Wei Bu caminha por uma rua cinzenta Wei Bu caminha sem rumo pela rua Wei Bu de cabeça baixa Yu Cheng numa cidade sombria Wei Bu numa rua gelada
Aviso de spoilers: O texto a seguir conta a história inteira, as reviravoltas e o final. Você pode pular pelos capítulos até a parte que quer relembrar.

Uma cidade cinzenta

Hebei, uma cidadezinha anônima do norte da China. O céu é sempre cinza, e o ar tem cheiro de carvão e de desesperança. Ali as pessoas vivem, mas é difícil dizer que tenham uma vida.

Neste dia, quatro pessoas vão passar, cada uma por si, as vinte e quatro horas mais longas de suas vidas. Elas não se conhecem, mas a mesma cidade as puxa com sua gravidade. Todas já ouviram a mesma lenda: no zoológico de Manzhouli há um elefante que passa o dia inteiro sentado, sem fazer nada. Ninguém sabe por que ele fica assim, mas todo mundo que se sente sem saída quer ir vê-lo.

Wei Bu caminha por uma rua cinzenta

Wei Bu

Wei Bu é um estudante do ensino médio calado e reservado. Sua família está em pedaços: o pai é violento e incapaz, a mãe é fria e cruel, e a casa inteira está tomada por uma hostilidade sufocante. Na escola, o único amigo de Wei Bu é outro garoto tão isolado quanto ele.

Nessa manhã, Yu Shuai, o valentão da escola, assedia o amigo de Wei Bu no corredor. Wei Bu avança e empurra Yu Shuai. Yu Shuai cai escada abaixo, bate a cabeça e fica caído no chão, imóvel.

Wei Bu não sabe se Yu Shuai está vivo ou morto. Só sabe que provocou uma desgraça enorme. Pega a mochila e sai correndo pela porta dos fundos da escola.

Wei Bu caminha sem rumo pela rua

Yu Cheng

Yu Cheng é o irmão mais velho de Yu Shuai, um jovem metido no submundo local. Usa jaqueta de couro, dirige um carro caindo aos pedaços e parece violento, mas por dentro é muito mais frágil do que aparenta. Há tempos ele tem um caso com a mulher do melhor amigo, e quando o amigo descobre a verdade, se joga da varanda e morre na hora.

Yu Cheng vê o amigo cair com os próprios olhos. Fica parado junto à janela, com a mão ainda estendida no gesto com que tentou segurá-lo. Desde esse instante, a culpa pesa em seu peito como uma pedra.

Então ele recebe uma ligação: o irmão, Yu Shuai, foi empurrado escada abaixo, e o estudante que o empurrou fugiu. Yu Cheng precisa encontrá-lo. Mas ele também não tem mais para onde ir: a mãe do amigo exige que ele pague com a vida, e ele não tem coragem nem de encarar aquela senhora.

Huang Ling

Huang Ling é colega de classe de Wei Bu. Ela mantém uma relação imprópria com o vice-diretor da escola, e alguém grava um vídeo dos dois e o publica na internet. De um dia para o outro, ela vira motivo de piada da escola inteira.

Wei Bu de cabeça baixa

A mãe, em vez de consolá-la, a repreende por envergonhá-la. Huang Ling não aguenta ficar em casa e também não aguenta ficar na escola. Sai com a mochila nas costas e vaga sem rumo pela cidade. Não sabe aonde ir; só sabe que não quer voltar a nenhum lugar onde sinta vergonha.

Wang Jin

Wang Jin é um idoso que mora sozinho, tendo um velho cachorro como única companhia. A casa onde ele viveu a maior parte da vida virou um estorvo para a filha e o genro, que querem interná-lo num asilo para ficar com o imóvel e dá-lo ao neto.

Wang Jin não quer ir embora. Aquela é a casa dele: ali ficam as marcas da falecida esposa e as lembranças de uma vida inteira. Mas a filha fica cada vez mais firme, e o semblante do genro, cada vez mais hostil. Depois de uma discussão, Wang Jin sai de casa levando o cachorro pela coleira.

Ele também não sabe aonde ir.

Yu Cheng numa cidade sombria

Um dia interminável

As quatro histórias se entrelaçam nesta cidade cinzenta.

Na fuga, Wei Bu encontra Huang Ling, e os dois jovens, igualmente perdidos, caminham juntos por um tempo pelas ruas. Yu Cheng segue o rastro de Wei Bu enquanto foge da mãe do amigo, que o persegue. Wang Jin passeia com o cachorro pela rua, e um grupo de arruaceiros o tira dele.

Todos procuram uma saída, mas nesta cidade cada rua parece um beco sem saída. Não podem voltar para casa, não podem voltar para a escola, já não têm amigos nem dignidade. São como animais presos numa jaula, dando voltas sem parar e sem nunca achar a saída.

Wei Bu então se lembra da lenda: o elefante de Manzhouli. Decide ir vê-lo. Compra uma passagem de trem para Manzhouli. Huang Ling diz que também quer ir. Wang Jin diz que também vai.

Manzhouli

Wei Bu numa rua gelada

A noite cai. Wei Bu, Huang Ling e Wang Jin embarcam num ônibus de longa distância rumo a Manzhouli. Yu Cheng, no fim, não alcança Wei Bu nem tem coragem de encarar a mãe do amigo: desaparece sozinho na noite da cidade.

O ônibus segue pela estrada escura. Pela janela não se vê nada. Os três viajam em seus assentos, em silêncio.

O ônibus para num posto de descanso sem nome. Todos descem para tomar ar. Sob o céu frio da noite, de algum ponto na escuridão chega de repente um urro abafado, como o barrito de um elefante.

Eles ouvem.

O filme termina aqui. Ninguém chega de fato a Manzhouli, ninguém vê o elefante. Mas naquele instante, em meio ao vento gelado e à noite, aquele som lhes dá uma razão para seguir em frente. Talvez não importe se o elefante existe ou não; o que importa é que você ainda esteja disposto a partir para procurá-lo.

O diretor Bo Hu deixou este mundo pouco depois de terminar este filme, aos vinte e nove anos. Esta estreia de quase quatro horas, que também foi sua obra póstuma, é como uma longa carta escrita a todos os que se sentem presos pela vida: pesada, sombria, mas que, mesmo no desespero mais profundo, deixa um eco vindo de muito longe.