Vida Selvagem
Um incêndio florestal em Montana, em 1960, traz à tona o desemprego, a crise no casamento e o amadurecimento do filho adolescente que a família Brinson vinha acumulando: um resumo completo da crise familiar de Vida Selvagem e do final no estúdio fotográfico
Título
Vida Selvagem
Wildlife
Ano / Duração
2018 · 104 minutos
Gênero
Drama
Direção
Paul Dano
Roteiro
Paul Dano, Zoe Kazan
Avaliação
Elenco
Carey Mulligan (como Jeanette Brinson), Jake Gyllenhaal (como Jerry Brinson), Ed Oxenbould (como Joe Brinson), Bill Camp (como Warren Miller), Zoe Margaret Colletti (como Ruth-Ann)
Obra original
Baseado no romance homônimo de Richard Ford, publicado em 1990
Prêmios
34º Independent Spirit Awards: indicações a Melhor Primeiro Filme, Melhor Atriz e Melhor Fotografia
Vida Selvagem é um drama americano lançado em 2018 e a estreia do ator Paul Dano na direção de longas-metragens. Ele e Zoe Kazan assinam o roteiro, baseado no romance homônimo que Richard Ford publicou em 1990. O elenco principal reúne Carey Mulligan, Jake Gyllenhaal, Ed Oxenbould e Bill Camp, e o filme tem 104 minutos. Vida Selvagem teve sua estreia mundial no Festival de Sundance em janeiro de 2018 e, em 19 de outubro do mesmo ano, entrou em cartaz de forma limitada nos Estados Unidos.
Até a publicação deste texto, o filme tem nota 6,8 no IMDb. O Rotten Tomatoes reúne 218 críticas, com 94% de aprovação e 71% de aprovação do público. O consenso do Rotten Tomatoes diz que Paul Dano retrata uma família em crise com composições cuidadosas, e que Carey Mulligan entrega uma atuação especialmente marcante. O filme não toma o partido de nenhum dos Brinson: ele mantém Joe, de 14 anos, na posição de observador, e deixa o desemprego, a dignidade, a pressão financeira e as rachaduras do casamento entrarem, uma a uma, no seu campo de visão.
A demissão em Great Falls

Em 1960, Jerry Brinson, a esposa Jeanette e o filho Joe se mudam para Great Falls, em Montana. Não é a primeira vez que a família troca de cidade. Jerry trabalha como instrutor de golfe em um clube de campo, Jeanette fica em casa, e Joe entra para o time de futebol americano da escola. O fogo nas florestas distantes se espalha, e a fumaça atravessa a planície com o vento, mas a primeira crise dos Brinson vem da vida cotidiana.
O diretor do clube demite Jerry, alegando que ele ultrapassou os limites profissionais no trato com os clientes. No início, Jeanette consola o marido e diz que a competência dele logo vai abrir novas portas. Jerry, porém, entende a demissão como desprezo dos ricos pelas pessoas comuns. Mais tarde, ele recebe a chance de voltar ao antigo posto, mas recusa por orgulho e também não quer aceitar de imediato empregos com salário e status inferiores aos de antes.

O desemprego afasta Jerry aos poucos da vida que levava. Às vezes ele fica dentro do carro, observando de longe os bombeiros que se reúnem, sem procurar trabalho com constância e sem admitir que a família está perdendo sua fonte de renda. Jeanette passa do apoio à ansiedade, e os dois discordam sobre como sustentar a casa e se devem continuar em Great Falls. Joe não consegue resolver o conflito dos pais e só pode ouvi-los discutir dinheiro e trabalho, de novo e de novo, à mesa, no carro e na sala.
Mãe e filho começam a ganhar dinheiro
Jeanette primeiro procura vaga de professora em uma escola, mas não consegue o cargo na hora. Depois, encontra trabalho como instrutora de natação na ACM. Ela volta a vestir o maiô e a dar aula à beira da piscina, e pela primeira vez assume de forma clara o sustento da família. O trabalho lhe dá espaço de ação, mas não apaga o ressentimento dela com Jerry, que muda sempre de cidade e foge da realidade quando as coisas dão errado.

Joe também deixa o time de futebol americano e arruma um trabalho de meio período em um estúdio fotográfico da cidade. Ele organiza as fotos dos clientes, aprende a revelar e a fazer retratos, e entrega em casa o dinheiro que ganha. A câmera o mantém sempre à margem das conversas dos adultos: ele já começou a ganhar dinheiro, mas continua sendo uma criança que precisa que os pais lhe deem segurança.

Os pais, por sua vez, se acostumam cada vez mais a tratá-lo como confidente. Jeanette fala a Joe do cansaço do casamento, e Jerry pede que o filho entenda as escolhas que faz. O desempenho de Joe na escola é afetado. Ele quer apoiar o pai e, ao mesmo tempo, vê a pressão que a mãe carrega. Os dois buscam aprovação nele, e isso o obriga a encarar cedo demais questões que nenhuma criança deveria ter de julgar.
Jerry vai combater o incêndio
As florestas próximas continuam em chamas, e as equipes de combate ao fogo não param de recrutar mão de obra temporária. Jerry acaba aceitando um serviço de combate ao incêndio mal pago e muito arriscado, e se prepara para deixar a casa e ir para as montanhas. Ele vê a decisão como a chance de provar de novo o seu valor e não quer que a esposa o desqualifique por causa do salário baixo. Jeanette acha que ele está indo embora justo quando a família mais precisa de dinheiro e de companhia, e Joe teme que o pai corra perigo no incêndio.

Depois que Jerry parte, Jeanette conta a Joe que talvez eles nem consigam pagar a casinha alugada e precisem se mudar para um lugar mais barato. Em algum momento, ela leva Joe de carro até perto da zona do incêndio. Os dois seguem pela estrada sob a nuvem de fumaça e veem o chão carbonizado e o fogo se aproximando da pista. Joe quer encontrar o pai, mas Jeanette não continua a procurá-lo ali. Na volta, ela diz ao filho, de forma ainda mais direta, tudo o que censura no marido.

De vez em quando, Jerry telefona para casa, mas a distância não suaviza o conflito. Jeanette começa a mudar o jeito de se vestir e a organização da vida, e deixa claro a Joe que não pretende apenas ficar esperando. Joe aguarda a volta do pai e, ao mesmo tempo, vê a mãe direcionar os planos da família para uma possibilidade em que Jerry não está.
O jantar na casa de Warren
Jeanette apresenta Joe a Warren Miller. Warren é mais velho e rico, dono de uma concessionária de carros e de outros negócios. Jeanette lhe deu aulas de natação, e ele lhe ofereceu um emprego. Jeanette sai de casa com frequência, e, numa vez em que Joe vai procurá-la na concessionária, a recepcionista não sabe quem ela é. Joe não recebe uma resposta clara sobre qual é, afinal, a relação entre a mãe e Warren.

Warren convida mãe e filho para jantar em sua casa. Jeanette põe um vestido verde, bebe à mesa e vai perdendo o controle habitual na conversa e nos gestos. Depois do jantar, Warren dança com ela e a beija, e Joe presencia tudo de um canto. Jeanette não leva o filho embora de imediato e continua ao lado de Warren.

Naquela mesma noite, Warren aparece na casa dos Brinson. Joe descobre depois que ele passou a noite lá e, chocado, questiona a mãe. Jeanette não diz que ama Warren nem que deixou de amar Jerry. Ela admite que esse relacionamento pode melhorar a situação financeira dela e do filho, e pergunta a Joe se ele tem uma saída melhor. Joe não sabe o que responder e também não aceita ser obrigado a fazer parte da decisão da mãe.

Na manhã seguinte, Joe arruma parte da bagagem e vai à rodoviária com a intenção de partir sozinho. Quando o ônibus chega, começa a nevar, e essa neve significa que o incêndio será controlado. No fim, ele não embarca: volta para casa e continua esperando o pai.
A volta de Jerry e o fim da família
Jerry termina o serviço de combate ao fogo e volta a Great Falls, e Jeanette recebe o regresso dele com frieza. Ela já começou a alugar outro lugar na cidade e diz a Joe que ele pode escolher por conta própria com quem morar. Jerry percebe que o casamento mudou e insiste que a esposa admita a relação com Warren. Quando descobre que Warren passou a noite na casa deles, perde totalmente o controle.

Jerry leva Joe para sair e, em um bar, continua perguntando sobre o que aconteceu naquela noite. Depois, descobre o endereço de Warren na lista telefônica. Em seguida, pega um galão de gasolina em um posto e dirige até a casa de Warren. Joe fica por perto e vê o pai despejar gasolina na varanda e acender um fósforo. As chamas sobem de repente, e a roupa de Jerry também pega fogo. Joe corre até ele, derruba-o e apaga o fogo com o casaco.

Warren sai da casa e espanca Jerry, caído na grama, uma vez atrás da outra. O som dos carros de bombeiros e de polícia se aproxima. Jerry estende a mão para que Joe o ajude a ir embora, mas Joe recua, se vira e foge. Ele corre até a delegacia, achando que o pai será preso por incêndio criminoso. Depois, Joe é levado para casa e fica sabendo que Warren contou que tudo foi um mal-entendido e não pretende prestar queixa. Jerry escapa da prisão, mas ele e Jeanette já não conseguem recuperar o casamento de antes.
O final
Jeanette deixa Montana e vai dar aula em Portland, no Oregon. Chega a primavera de 1962, e Joe continua em Great Falls, morando com Jerry. Jerry virou vendedor, e a rotina entre pai e filho voltou à calma. Joe segue trabalhando no estúdio fotográfico, é promovido e entra para o quadro de honra da escola. Jeanette escreve avisando que vai fazer uma visita curta, Joe a busca na rodoviária, e os três voltam a se sentar à mesma mesa.

O reencontro continua constrangido. Jeanette fica só um fim de semana e não diz que pretende voltar para Jerry. Joe convida os pais a irem ao estúdio e os leva à sala usada para retratos. Primeiro, ele os põe sentados diante do fundo azul, com uma cadeira vazia no meio. Jeanette se sente desconfortável e sugere tirar a foto só de Joe com o pai, mas Joe insiste que os três apareçam juntos.

Joe ajusta a luz e a câmera, senta-se entre os pais e segura na mão o cabo do disparador. Ele pega a mão da mãe, faz os dois olharem para a lente e aperta o botão. A imagem congelada é a de uma foto de família completa na forma: os três encostados de novo, sem apagar a separação que já aconteceu. O filme termina depois que o flash dispara. Ele não apresenta a foto como a reconciliação do casamento, e deixa Joe guardar a última imagem em comum de uma família que já mudou.