Um Momento para Recordar
Um amor devorado pelo Alzheimer e a história de um homem que decide ficar: o enredo completo do filme sul-coreano Um Momento para Recordar, desde o encontro acidental na loja de conveniência, passando pelo namoro e pelo casamento que atravessam as diferenças de classe, até o modo como o Alzheimer apaga a memória aos poucos e o final de partir o coração.
Título
Um Momento para Recordar
A Moment To Remember
Ano / Duração
2004 · 117 minutos
Gênero
Romance / Drama
Direção
John H. Lee
Roteiro
John H. Lee / Kim Young-ha
Avaliação
Elenco
Jung Woo-sung, Son Ye-jin
O encontro na loja de conveniência
Kim Soo-jin (Son Ye-jin) é filha do dono de uma construtora, tem 27 anos e trabalha como estilista em uma empresa de moda. No início da história, ela acaba de sair de um relacionamento fracassado: o ex-namorado era casado e, depois de combinarem de fugir juntos, deixou-a plantada na estação de trem. De coração partido, Soo-jin entra em uma loja de conveniência para comprar uma lata de refrigerante, mas, distraída, sai e esquece a lata no balcão.
Quando se lembra e volta, ela vê um homem barbado e desleixado bebendo uma lata de refrigerante. Convencida de que a lata é sua, ela a toma da mão dele sem dizer nada, bebe tudo de um gole, devolve a lata vazia e vai embora. Esse homem é Choi Cheol-soo (Jung Woo-sung), carpinteiro em uma obra, que estuda arquitetura meio período e sonha em ser arquiteto um dia.
Esse absurdo “roubo do refrigerante” é o ponto em que o destino dos dois se cruza.

O reencontro na obra e o namoro
Pouco depois, Soo-jin acompanha o pai em uma visita a uma obra e descobre, surpresa, que o mestre de obras é o mesmo homem de quem tomou o refrigerante na loja. Cheol-soo vem de origem humilde: quando jovem, foi parar em um reformatório por causa de brigas, e abriu caminho nas obras com força física e lealdade. As classes sociais dos dois são muito diferentes, mas Soo-jin não se importa nem um pouco.
Soo-jin se sente atraída pelo jeito rude, porém sincero, de Cheol-soo e toma a iniciativa de conquistá-lo. No começo, ele hesita, acanhado: sabe muito bem o abismo que os separa. Mas a franqueza e o entusiasmo de Soo-jin são irresistíveis, e os dois logo se apaixonam. Passeiam de moto, brincam na rua, tiram selfies sorrindo e vivem uma temporada doce e despreocupada.

O casamento apesar da pressão
O namoro encontra forte oposição na família de Soo-jin. O pai dela, dono da construtora, vê Cheol-soo apenas como um operário a seu serviço, que não merece a filha. A mãe também não aprova a relação. Mas Soo-jin se mantém firme e até pede Cheol-soo em casamento. Diante da determinação da filha, os pais acabam cedendo.
Os dois se casam e começam uma vida simples e aconchegante. Cheol-soo continua trabalhando na obra e estudando arquitetura, e projeta com as próprias mãos a casa dos sonhos do casal. Soo-jin aprende a cuidar da casa e da família. Nessa fase, ela também ajuda Cheol-soo a se reconciliar com a mãe, de quem ele estava afastado havia anos.

A rotina depois do casamento (o vapor na cozinha, as conversas à mesa, as noites abraçados) é o momento mais tranquilo e mais precioso do filme.

Os primeiros sinais do esquecimento
A vida doce não dura muito: Soo-jin começa a ter comportamentos estranhos. Ela prepara para Cheol-soo um almoço com apenas duas porções de arroz branco, sem nenhum acompanhamento; sai para fazer compras e esquece o caminho de casa, que percorre todos os dias; esquece de desligar o fogo enquanto cozinha e quase provoca um incêndio, que Cheol-soo consegue apagar ao chegar a tempo. Ela repete a mesma pergunta várias vezes, e os esquecimentos ficam cada vez mais frequentes.
No início, Cheol-soo acha que é apenas descuido ou excesso de estresse da esposa. Mas os episódios se repetem com mais frequência e ficam cada vez mais graves. A própria Soo-jin começa a sentir vagamente que algo está errado: ela sabe que há algo de errado com sua cabeça.
Por fim, eles vão ao hospital. O diagnóstico cai como um raio: Soo-jin tem Alzheimer precoce. Essa doença cerebral degenerativa costuma aparecer em idosos, mas Soo-jin a desenvolve com apenas 27 anos: o cérebro dela se atrofia e morre aos poucos, e a memória some de forma irreversível, pedaço por pedaço.

A memória desmorona
Depois do diagnóstico, Soo-jin a princípio se recusa a aceitar a realidade. Tenta esconder a doença de Cheol-soo e suportá-la sozinha, em silêncio. Mas a doença avança muito mais rápido do que ela imaginava e não dá mais para esconder. Ela começa a encher um caderno de anotações apertadas (o nome de Cheol-soo, o endereço de casa, as tarefas de cada dia), numa tentativa desesperada de deixar algum rastro antes que a memória seja apagada.
Enquanto isso, o ex-namorado de Soo-jin aparece para devolver alguns objetos dela. Quando Cheol-soo chega em casa e vê no rosto de Soo-jin aquela expressão de alegria tão familiar diante do ex, ele o confronta na frente da família dela. O pai de Soo-jin propõe levar a filha de volta para cuidar dela, mas Cheol-soo insiste em cuidar dela sozinho.
No entanto, o golpe mais duro ainda está por vir. Um dia, Soo-jin olha para o rosto de Cheol-soo, chama-o pelo nome do ex-namorado e diz: “Eu te amo”. Ela já não sabe quem está diante dela: confunde Cheol-soo com outra pessoa. Ele fica paralisado, destruído por dentro. Vai procurar o médico de Soo-jin, que explica em detalhes o rumo cruel da doença: a memória dela vai continuar se deteriorando até que ela esqueça todo mundo, inclusive ele.

A carta e a partida de Soo-jin
Na manhã seguinte, Soo-jin recupera brevemente alguma lucidez. Ela percebe o que fez na noite anterior (chamou Cheol-soo pelo nome de outro homem) e sente culpa e desespero profundos. Sabe que está se tornando alguém que não vai parar de machucá-lo e que não tem como impedir isso.
Soo-jin deixa uma carta e sai de casa sozinha, internando-se por conta própria em uma casa de repouso. Na carta, ela diz a Cheol-soo que ele não deve se desgastar mais por ela e que deve viver a própria vida. Ela não quer que ele a veja, dia após dia, virar uma estranha diante dos seus olhos.
O reencontro na loja de conveniência
Cheol-soo se recusa a desistir. Procura Soo-jin por toda parte até encontrar a casa de repouso onde ela está.
Como última tentativa, ele leva Soo-jin de volta à loja de conveniência onde os dois se conheceram. A família e os amigos de Soo-jin estão reunidos lá. Cheol-soo recria a cena daquele dia, tentando despertar nela a primeira lembrança dos dois.
Então acontece algo quase milagroso: naquele espaço familiar, Soo-jin se lembra. Lembra da lata de refrigerante que tomou dele, do homem à sua frente e de todos os dias que viveram juntos.

O final: a última viagem ao pôr do sol
Depois desse breve lampejo de memória na loja, Cheol-soo leva Soo-jin para o carro. O sol se põe, e o carro segue para longe. Lá dentro, Cheol-soo diz a Soo-jin: “Eu te amo”. Ele sabe que, talvez em algumas horas, Soo-jin esquecerá tudo de novo: a loja, o nome dele, tudo o que aconteceu naquele dia. Mas, neste instante, ela se lembra. E este instante basta.
O filme termina com esse carro seguindo rumo ao horizonte. Não há cura milagrosa nem promessa de final feliz. A borracha continua apagando, mas Cheol-soo escolhe ficar ao lado dela, recomeçando uma e outra vez. Toda manhã, Soo-jin acorda sem reconhecer o homem ao seu lado; toda noite, antes de dormir, volta a se apaixonar por esse desconhecido. É assim que será o resto da vida deles.
O filme é baseado na série de TV japonesa Pure Soul, foi dirigido por John H. Lee e se sustenta nas atuações de Son Ye-jin e Jung Woo-sung. Son Ye-jin retrata com nuances o declínio de Soo-jin, de mulher vivaz a mente confusa, enquanto Jung Woo-sung compõe, com contenção e silêncio, a figura de um marido “impotente, mas que não desiste”. Lançado na Coreia do Sul em 2004, o filme teve enorme repercussão e continua sendo considerado um clássico do cinema romântico coreano.