Sob o Silêncio Das Águas
Um assassinato à beira do rio arrasta segredos, acasos e desordem para a mesma correnteza: um relato completo de como Ma Zhe investiga a morte da vovó Yao Si em Sob o Silêncio Das Águas, enfrenta uma sucessão de mortes e perde aos poucos a capacidade de distinguir a realidade da própria percepção
Título
Sob o Silêncio Das Águas
Only the River Flows
Ano / Duração
2023 · 102 minutos
Gênero
Drama / Crime / Mistério
Direção
Wei Shujun
Roteiro
Chunlei Kang, Wei Shujun
Avaliação
Elenco
Yilong Zhu, Chloe Maayan, Tianlai Hou, Tong Linkai, Chunlei Kang, Jianyu Wang, Moxi Zishi, Baisha Liu
Obra original
A novela homônima Hebian de cuowu, de Yu Hua
Prêmios
Selecionado para a mostra Un Certain Regard do 76º Festival de Cannes; Prêmio Fei Mu de Melhor Filme no 7º Festival Internacional de Cinema de Pingyao
Sob o Silêncio Das Águas (Only the River Flows) é um drama policial dirigido por Wei Shujun e escrito por Chunlei Kang e Wei Shujun, adaptado da novela homônima de Yu Hua. Yilong Zhu interpreta o capitão da polícia criminal Ma Zhe; Chloe Maayan, Tianlai Hou, Tong Linkai, Chunlei Kang, Jianyu Wang, Moxi Zishi e Baisha Liu dão vida aos personagens ligados ao caso. O filme estreou em maio de 2023 na mostra Un Certain Regard do 76º Festival de Cannes e chegou aos cinemas da China continental em 21 de outubro do mesmo ano, com duração de 102 minutos.
Em 22 de setembro de 2026, o filme tinha nota 6,6 no IMDb, com cerca de 4.500 votos; o Rotten Tomatoes reunia 41 críticas de especialistas, com 85% de aprovação, e dava ao público 50%, a partir de menos de 50 avaliações.
A vovó Yao Si é encontrada à beira do rio
A história se passa em 1995, no condado de Peishui, na província de Jiangdong. Um menino que brinca de polícia com uma pistola de madeira atravessa um prédio em demolição e, mais tarde, encontra à beira do rio o corpo da vovó Yao Si, assassinada. O capitão da polícia criminal Ma Zhe examina a margem com Xie e outros policiais e confirma que a vítima morava sozinha na viela do antigo correio e tinha acolhido um homem incapaz de se comunicar normalmente. Todos na cidade chamam esse homem de “o louco”.

O chefe de polícia exige que o caso seja resolvido o quanto antes e cede à equipe criminal, como escritório provisório, um cinema prestes a fechar. Ma Zhe e os colegas levam as provas, as fotos e o equipamento de projeção para a sala, onde se reúnem diante da tela para analisar o caso. A delegacia está processando reconhecimentos de mérito individual; Ma Zhe se lembra de ter recebido em Yunnan uma condecoração de terceira classe, mas não há registro dela em seu prontuário, uma contradição que por ora fica sem explicação.

A fita revela Qian Ling e Wang Hong
Uma bolsa feminina encontrada perto da cena leva a investigação até Qian Ling, operária de uma fábrica. Um lado da fita cassete que está dentro da bolsa tem canções, e o outro guarda mensagens íntimas que ela troca com o poeta Wang Hong. Wang Hong já tem família, e os dois mantêm o relacionamento em segredo. Ambos estiveram à beira do rio no dia do crime, mas, para que ninguém descubra o relacionamento, não contam por iniciativa própria à polícia o que viram.

Depois que Ma Zhe interroga cada um deles, o segredo do casal acaba se espalhando pela cidade. A família de Qian Ling a vigia e a impede de ir ao encontro marcado com Wang Hong; ele espera sozinho e, em seguida, torna-se a segunda vítima encontrada à beira do rio. O filme apresenta apenas os resultados da investigação e alguns fragmentos incompletos, sem confirmar como o crime acontece por meio de uma cena completa, alheia à percepção de Ma Zhe.

O louco é preso, mas o caso não termina
Os objetos da casa da vovó Yao Si, os vestígios deixados à beira do rio e os depoimentos dos moradores levam as suspeitas cada vez mais para o louco que ela havia acolhido. Na primeira vez que se aproxima dele na margem, Ma Zhe o vê mergulhar roupas na água e colocar pedras por cima, uma a uma. Ma Zhe tira o casaco, deixa-o junto à água e tenta imitar os movimentos do homem; ele não dá nenhuma resposta que possa ser tomada como confissão.

O chefe considera que as provas existentes bastam para encerrar o caso, e a polícia captura o louco e o envia a um hospital psiquiátrico. Ma Zhe não fica tranquilo: a arma do crime, os ferimentos e os relatos de várias testemunhas ainda têm pontos que não se encaixam por completo. O louco não consegue depor nem se defender normalmente e, embora o caso já tenha um suspeito claro, Ma Zhe continua examinando outras pistas.

O cabelo ondulado e a queda de Xu Liang
Alguém conta que, na hora do crime, viu à beira do rio uma pessoa de cabelo comprido e bem ondulado. A pista leva por fim ao cabeleireiro Xu Liang. Ele já foi preso por conduta indecente e, durante o interrogatório, pede repetidamente que a polícia o prenda de uma vez, mas não confessa nenhum assassinato. Depois que Xu Liang toma uma grande quantidade de remédios para dormir, ele é salvo; Ma Zhe e os demais entram então em sua casa e encontram roupas femininas, cosméticos e uma peruca longa e cacheada, o que confirma que a pessoa vista pela testemunha era Xu Liang vestido de mulher.

Na busca não há só policiais, e por isso Xu Liang não consegue mais manter em segredo aquilo que tanto se esforçava para esconder. Depois de se recuperar, ele diz a Ma Zhe que tirou de cima de si o peso que carregava por dentro, mas pouco depois cai de um prédio diante dele. O filme apresenta explicitamente essa morte como uma escolha do próprio Xu Liang e não o inclui entre as vítimas mortas diretamente pelo louco; mesmo assim, Ma Zhe não consegue se livrar do fato de ter revelado o segredo dele durante a investigação.

O exame pré-natal de Bai Jie
À parte do caso, Bai Jie, esposa de Ma Zhe, está grávida. Um exame mais detalhado mostra que o feto corre o risco de ter uma anomalia congênita, mas o médico não pode dar uma resposta definitiva antes do nascimento. Ma Zhe teme que a criança não possa levar uma vida normal e quer interromper a gravidez; Bai Jie se recusa a decidir se o filho deve nascer com base em uma probabilidade. Os dois brigam em casa, e a vida que preparavam juntos para receber o bebê também começa a rachar.

Bai Jie vem montando há tempos um quebra-cabeça com uma imagem de família. Depois da briga, Ma Zhe tira uma peça do centro e a joga na descarga; mas, mais tarde, o quebra-cabeça volta a aparecer completo. O filme não explica como a peça que faltava é recuperada. Essa contradição visual se soma à lembrança errada de Ma Zhe sobre a condecoração de terceira classe em Yunnan e faz com que suas experiências comecem a perder uma base estável na realidade.

A fuga do louco e o assassinato do menino
Mais tarde, o hospital psiquiátrico informa que o louco fugiu. O menino que encontrou primeiro a vovó Yao Si havia insistido em ver o assassino com os próprios olhos e agora também aparece morto à beira do rio; as pistas e os depoimentos voltam a apontar para o fugitivo. Ma Zhe conduz a busca pela margem, pelo mato e pelos prédios próximos, mas continua sem uma resposta que explique todas as vítimas e todos os vestígios.

Depois da queda de Xu Liang, Ma Zhe adormece no cinema. A sequência seguinte recombina a vovó Yao Si, Wang Hong, o menino, Xu Liang, o louco e o projetor em chamas; Ma Zhe corre para o rio com o aparelho incendiado nos braços e então acorda sobressaltado. O ato de acordar delimita claramente essa sequência como um sonho: os assassinatos que aparecem nela só mostram como Ma Zhe imagina o caso e não podem ser tomados como uma reconstituição confirmada dos fatos.

Quatro tiros e nenhuma bala a menos
Ma Zhe pede para se afastar do posto e deixa a investigação seguinte a cargo de Xie. Volta para casa para ficar com Bai Jie e também vai com ela a um estúdio fotográfico. A partir daí, passa a ver ou ouvir repetidamente o louco em fotografias, restaurantes e vielas. O filme permanece o tempo todo no ponto de vista dele, sem que ninguém mais confirme essas aparições fugazes. Durante uma perseguição, Ma Zhe atira quatro vezes seguidas e derruba o homem.

No dia seguinte, Ma Zhe informa ao chefe que matou o louco. O chefe examina a arma de serviço dele, mas descobre que não falta nenhuma bala no carregador, de modo que o tiroteio da noite anterior não pode ser considerado um fato ocorrido na realidade. O chefe recolhe a arma e o manda para casa descansar. Mais tarde, Ma Zhe entra sozinho no rio; o louco volta a aparecer na margem e veste o casaco dele. Ao sair da água, Ma Zhe o golpeia com uma pedra: a imagem mostra apenas o louco caído, não a morte dele.

O final
Depois das pancadas à beira do rio, o filme corta de repente para uma cerimônia de reconhecimento. Ma Zhe, de uniforme e sentado no palco, recebe a condecoração de terceira classe que antes não constava em seu prontuário. As imagens não mostram como a captura, a perícia médica ou o processo do caso são completados, e também não explicam o vazio entre a cerimônia e a cena anterior.

Um ano depois, Bai Jie dá à luz, e a família de três está em um cômodo quente e iluminado. O menino mergulha uma toalha na água da banheira e coloca os brinquedos por cima, um a um, com um gesto parecido com o do louco quando punha pedras sobre as roupas à beira do rio. Por fim, o menino levanta os olhos e encara diretamente a câmera; o filme termina.

A última ordem visível dos fatos é a das pancadas à beira do rio, a condecoração de terceira classe e o nascimento da criança, mas o filme não acrescenta a essas três sequências nenhuma explicação que permita determinar se são reais. O carregador cheio desmente o tiroteio, as pancadas à beira do rio não têm desfecho fatal, e tanto a cerimônia quanto a cena familiar podem tanto continuar a cronologia real quanto prolongar um desejo ou um sonho de Ma Zhe. O que fica estabelecido é que a percepção dele já entrou várias vezes em conflito com fatos verificáveis; o filme não oferece uma resposta única sobre se o louco cometeu todos os assassinatos nem sobre o que Ma Zhe vive depois da cena à beira do rio.