Ethel e Ernest
Um casal comum de Londres atravessa mais de quarenta anos juntos: um resumo completo da história da animação Ethel e Ernest, do primeiro encontro e da formação da família, passando pela criação do filho único e pela Segunda Guerra, até o final em que os dois morrem (com spoilers)
Título
Ethel e Ernest
Ethel & Ernest
Ano / Duração
2016 · 94 minutos
Gênero
Drama / Animação / Família
Direção
Roger Mainwood
Roteiro
Roger Mainwood / Raymond Briggs
Avaliação
Elenco
Brenda Blethyn (voz de Ethel Briggs), Jim Broadbent (voz de Ernest Briggs), Luke Treadaway (voz de Raymond Briggs adulto), Macready Massey (voz de Raymond Briggs adolescente), Harry Collett (voz de Raymond Briggs criança)
Obra original
baseado na graphic novel autobiográfica de mesmo nome, publicada por Raymond Briggs em 1998
Ethel e Ernest é um longa-metragem britânico de animação desenhada à mão, dirigido por Roger Mainwood, que também participou do roteiro. O filme é baseado na graphic novel de mesmo nome do escritor e ilustrador britânico Raymond Briggs, inspirada na vida dos próprios pais. Brenda Blethyn e Jim Broadbent dão voz a Ethel e Ernest, e Luke Treadaway dá voz a Raymond adulto. O filme estreou em outubro de 2016 no Festival de Cinema de Londres e depois chegou aos cinemas britânicos, com 94 minutos de duração.
A história vai de 1928 a 1971 e reúne, numa mesma casa geminada do sul de Londres, as grandes mudanças da época: a crise econômica, a Segunda Guerra Mundial, o sistema de bem-estar social do pós-guerra, a chegada da televisão e a ida do homem à Lua. Segundo os dados disponíveis em tempo real, o filme tem nota 7,7 no IMDb. A crítica em geral elogia a forma contida e carinhosa com que o filme retrata um casamento e uma vida familiar comuns. Algumas resenhas observam que, por manter a estrutura em episódios da obra original, certos conflitos e trajetórias dos personagens não são aprofundados.
A janela e a carroça de leite
Em 1928, Ethel trabalha como empregada numa casa de Londres. Todas as manhãs, o leiteiro Ernest passa de bicicleta diante da janela. Os dois começam a reparar um no outro e passam a aparecer de propósito no mesmo horário. Mais tarde, Ernest vai até a casa com flores e convida Ethel, cinco anos mais velha que ele, para ir ao cinema. É assim que o namoro começa.

Ernest é de temperamento tranquilo e se interessa pela política dos jornais e pelas novidades. Ethel valoriza mais a decência, a ordem e uma vida estável. Os dois nem sempre pensam igual, mas logo decidem se casar.
O casamento e a casa de 850 libras
No casamento, diante de parentes e amigos, Ethel e Ernest se tornam marido e mulher. Em seguida, compram por 850 libras uma casa geminada de dois andares no sul de Londres. A casa é velha no começo, mas tem banheiro interno e quintal. Ernest cuida dos reparos, e Ethel administra o lar com muita economia. Durante mais de quarenta anos, os dois moram ali.


Ernest continua como leiteiro, e Ethel deixa o trabalho de empregada para ser dona de casa. Ele é apaixonado pelo Partido Trabalhista e pelos direitos dos trabalhadores. Ela conserva as ideias que formou ao trabalhar em casas ricas e não aceita se considerar da classe trabalhadora. Os dois discutem política e mudanças sociais, mas as discussões nunca abalam a vida em comum.
O nascimento de Raymond e a infância do filho único
Em 1934, Ethel, aos 38 anos, dá à luz o filho Raymond. O parto é difícil, e o médico avisa que uma nova gravidez poria a vida dela em risco. O casal queria mais filhos, mas acaba criando Raymond como filho único.

Raymond cresce nessa mesma casa. Ethel é exigente com a roupa, os modos e os estudos do filho, enquanto Ernest é mais descontraído e costuma trazer para casa as novidades do mundo lá fora. Os pais querem que o filho receba a educação que eles não tiveram a chance de receber.

A guerra se aproxima de Londres
Quando a situação na Europa piora, jornais e rádio trazem notícias de guerra sem parar. Londres começa a se preparar contra ataques aéreos, balões de barragem surgem no céu, e os moradores aprendem a escurecer as janelas e a se abrigar. Ernest entra para a defesa civil e para o corpo de bombeiros, responsável por proteger o bairro durante os bombardeios. Ethel, por sua vez, passa a trabalhar como funcionária de escritório durante a guerra.


Para escapar dos bombardeios, o pequeno Raymond é enviado ao campo, em Dorset, para viver com parentes. Ethel sofre por se separar do filho, mas aceita a evacuação. Quando o casal viaja ao campo para visitá-lo, o breve reencontro não muda o fato de que a família precisa continuar separada.

Bombardeios, bombeiros e o Dia da Vitória
Durante a Blitz de Londres, explosões próximas danificam a casa, e Ernest, no trabalho de bombeiro, presencia de perto as vítimas e a destruição causadas pelos ataques aéreos. Ethel se esforça para manter a rotina do lar, entre o racionamento e os alarmes, esperando que o marido volte são e salvo. A guerra deixa de ser só notícia e entra diretamente na rua e na casa deles.
Depois da rendição alemã, a vizinhança comemora o Dia da Vitória na Europa. Raymond também deixa a vida de evacuado e volta para os pais, e a família se reúne de novo. A tensão acumulada por tantos anos se desfaz de repente, o menino grita de alegria no jardim, e os pais começam a imaginar uma vida em paz.

A escola do pós-guerra e o novo sistema
Depois da guerra, Raymond passa no exame para uma grammar school. Ethel vê isso como um passo importante do filho rumo a uma vida mais digna, e Ernest fica feliz porque uma criança de família comum tem acesso à educação. Quando o Reino Unido cria o Serviço Nacional de Saúde e amplia o sistema de bem-estar social, Ernest recebe essas mudanças com entusiasmo, enquanto Ethel continua desconfiada do socialismo e da intervenção do Estado.

A vida familiar volta aos poucos ao normal, e eletrodomésticos, geladeira, telefone e televisão entram na casa, um após o outro. Ernest está disposto a experimentar as novas tecnologias, enquanto Ethel costuma se preocupar primeiro se elas são necessárias e confiáveis. Por mais que o mundo lá fora se renove, a vida diária dos dois continua girando em torno da mesa, do jardim e do filho.

Raymond escolhe a arte
Mais tarde, Raymond abandona a carreira tradicional que os pais esperavam dele e vai para uma escola de arte. Ethel tem dificuldade em aceitar no começo, com medo de que a arte não dê ao filho uma vida estável. Ernest, embora também não entenda por completo, sente orgulho de o filho poder continuar estudando. Depois de cumprir o serviço militar, Raymond segue com a formação artística e mais tarde se torna professor e ilustrador.

Na década de 1960, Raymond, já adulto, usa cabelo comprido e leva uma vida que os pais consideram pouco convencional. Ele se apaixona por Jean e se casa com ela. Ethel se preocupa tanto com a escolha do filho quanto com a doença mental de Jean. Abre-se uma distância de gerações entre pais e filho, mas Raymond continua voltando àquela casa.

O carro novo, o telefone e a era da Lua
Perto da aposentadoria, Ethel e Ernest vivem com mais folga do que na juventude. Eles têm um carro, saem para visitar parentes e continuam passando os dias na casa e no jardim que conhecem bem. A casa vai passando do fogão a carvão e da lamparina a óleo para a eletricidade, e o telefone particular e a televisão trazem um mundo maior para dentro da sala.


Em 1969, quando a televisão transmite as imagens da chegada à Lua, Ernest se empolga com o avanço da ciência, e Ethel continua meio desconfiada. Ao longo de várias décadas, os dois viram a crise econômica, a guerra e a reconstrução do pós-guerra, e agora veem o ser humano pisar na Lua. A época muda sem parar, e a vida a dois se torna o centro que não muda.
A velhice entra no dia a dia
Com o passar dos anos, o mundo do casal vai encolhendo. Os dois ainda se sentam lado a lado no jardim, assistem à televisão dentro de casa, tomam chá e conversam sobre o filho. O ritmo que antes dependia do trabalho e das tarefas da casa vai desacelerando.

A memória e a saúde de Ethel começam a piorar, e aos poucos ela deixa de conseguir cuidar de si mesma. Ernest fica ao lado dela para cuidar, e Raymond volta para ficar com os pais. Com o agravamento da doença, Ethel é levada para o hospital, e pai e filho percebem que esta separação não vai terminar em reencontro, como a evacuação da guerra.

O final
Em 1971, Ernest sai empurrando Ethel, sentada numa cadeira de rodas. O corpo dela fica cada vez mais frágil, e depois ela morre no hospital. Raymond e o pai suportam juntos o golpe de perdê-la, e a vida de casal que durou mais de quarenta anos de repente se reduz a uma só pessoa.

Ernest volta para a casa vazia e ainda tem o hábito de se sentar à mesa, mas a cadeira à frente dele está desocupada. Ele não vive sozinho por muito tempo e morre alguns meses depois. Raymond perde os dois pais no mesmo ano, um logo após o outro.

O filme termina voltando ao olhar de Raymond para a vida dos pais: aquela casa geminada comum foi testemunha do primeiro encontro, do casamento, da criação do filho, da guerra, das mudanças sociais e de duas mortes. O que fica no fim não são os grandes acontecimentos em si, mas lembranças do dia a dia, como Ernest entrando em casa com o jornal na mão e Ethel esperando lá dentro.
