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Ainda Temos o Amanhã

Uma carta muda a Roma do pós-guerra de uma mulher: na Roma de 1946, uma mulher oprimida pelos punhos do marido encontra, em uma carta, a coragem de mudar seu destino. O fenômeno do cinema italiano dirigido e estrelado por Paola Cortellesi.

Título

Ainda Temos o Amanhã

Ce Ancora Domani

Ano / Duração

2023 · 118 minutos

Gênero

Drama / Comédia / Histórico

Direção

Paola Cortellesi

Roteiro

Paola Cortellesi / Furio Andreotti / Giulia Calenda

Avaliação

Elenco

Paola Cortellesi, Valerio Mastandrea, Romana Maggiora Vergano, Emanuela Fanelli

Prêmios

69º Prêmio David di Donatello: Melhor Diretor Estreante, Melhor Roteiro Original e Melhor Atriz, entre 6 prêmios no total

Ainda Temos o Amanhã
Cena 1 Cena 2 Cena 3 Cena 4 Cena 5
Aviso de spoilers: O texto a seguir conta a história inteira, as reviravoltas e o final. Você pode pular pelos capítulos até a parte que quer relembrar.

Em 2023, a Itália teve um fenômeno de cinema. Ainda Temos o Amanhã (C’è ancora domani), longa de estreia de Paola Cortellesi como diretora, arrecadou mais de 36 milhões de euros no mercado local, superou todas as grandes produções de Hollywood do período e se tornou o filme do ano. Um filme em preto e branco, sobre uma dona de casa comum na Roma de 1946, levou o país inteiro aos cinemas, e em várias sessões o público terminava de pé, aplaudindo. A seguir, o resumo completo da história, com spoilers.

Delia, presa dentro de casa

A história se passa em Roma, logo depois do fim da Segunda Guerra Mundial. Delia (interpretada por Paola Cortellesi) é esposa e mãe em uma família operária, e seu marido, Ivano (Valerio Mastandrea), é um machista brutal. O filme define o tom logo na abertura, de um jeito quase absurdo: toda manhã, Ivano acorda Delia com um tapa no rosto, pontual como um despertador. Cortellesi transforma as cenas de violência doméstica em uma “dança” distorcida: os socos do marido e os desvios da esposa são montados em sequências com ritmo próprio, ao som de pop moderno que destoa de propósito. Esse tratamento não embeleza a violência. Ao contrário, torna-a mais cotidiana e mais sufocante: não é um acidente isolado, e sim algo que existe naquela casa como o ar.

A rotina de Delia é uma linha de montagem espremida ao limite: ela acorda antes de o dia clarear, cozinha para a família inteira, serve o sogro de gênio ruim, Ottorino (o velho é ainda mais cruel que o filho, e humilhar Delia na frente de todos é rotina), leva as crianças à escola e depois sai escondida para fazer biscates, como aplicar injeções, consertar guarda-chuvas e ajudar uma costureira. Todo o dinheiro que ganha vai para Ivano. Naquela casa, ela não tem voz, não tem autonomia financeira e nem sequer tem o direito de se sentar à mesa com a família.

Cena 1

O único alívio de Delia é a amiga Marisa, sua vizinha, de temperamento forte e direto, que vive incentivando Delia a reagir, mas Delia sempre responde com silêncio. Outra linha secundária é a do mecânico Nino, amigo de infância de Delia, que nunca deixou de ter sentimentos por ela. A presença de Nino faz o espectador pressentir que talvez exista outro caminho para Delia, mas ela nunca dá um passo nessa direção.

O casamento de Marcella: a história se repete

Delia tem uma filha mais velha, Marcella, na flor da juventude, inteligente e cheia de opinião. Ivano está ocupado em casá-la com um jovem chamado Giulio, de família abastada, cujo pai tem um café e é bem visto na vizinhança. O noivado avança bem, as duas famílias brindam juntas, e Ivano acha que é o negócio mais glorioso da sua vida.

Mas Delia vê o que os outros não veem. Por acaso, por uma porta entreaberta, ela observa a expressão e o tom de Giulio ao falar com Marcella: aquela possessividade, aquela sensação de controle de “você só pode ser minha” é igual à do Ivano jovem. Delia percebe que, se o casamento acontecer, a filha vai repetir o seu caminho: casar-se com um homem de boa aparência, que no fundo trata a esposa como um objeto, e passar o resto da vida entre tarefas domésticas sem fim e socos. Essa descoberta se torna o núcleo emocional do filme: Delia aguenta o próprio destino, mas não consegue ver o mesmo destino cair sobre a filha.

Cena 2

A carta misteriosa

A virada do filme é a chegada de uma carta. Delia recebe uma carta e, a partir daí, passa a agir de outra forma: sai com mais frequência, some sem explicar, junta dinheiro às escondidas e esconde algumas coisas. Ivano nota a mudança da esposa e começa a suspeitar de que ela tem um caso. Os vizinhos também comentam por trás. O espectador fica no escuro da mesma forma: o filme mantém o suspense de propósito, para que todos, junto com os personagens, adivinhem o que é essa carta.

Ao mesmo tempo, Delia já chegou a ter um plano de fuga. Ela tenta levar os filhos e deixar Ivano, e chega a combinar com o amigo de infância, Nino, de fugirem juntos para o norte, mas a morte repentina do sogro, Ottorino, bagunça tudo: o funeral a prende de novo àquela família, e o plano de fuga fracassa. Depois disso, aparece na vida de Delia William, um policial militar negro americano estacionado em Roma. William representa um mundo completamente diferente, em que uma mulher pode ser tratada como gente. Com a ajuda de William, Delia arma algo grande: explodir o café de que vive a família de Giulio. Com o café destruído, a família de Giulio perde toda a fortuna, e Ivano, achando que o casamento já não “compensa”, cancela por conta própria o noivado de Marcella. No começo, Marcella não entende a intenção da mãe, mas Delia prefere que a filha a odeie por um tempo a vê-la entrar em um casamento destinado à violência.

Cena 3

O final: não é uma carta de amor, é um voto

O clímax é o trecho mais brilhante do filme, com cerca de vinte minutos. Nesse momento, Ivano, Marcella e até o espectador foram enganados pela ilusão que a diretora preparou com cuidado: todos acham que a carta nas mãos de Delia é uma carta de amor escrita por Nino, e que ela vai largar tudo para fugir com o antigo amor. Delia sai apressada com a carta, Ivano percebe e corre atrás, furioso. Marcella também vai atrás. As ruas de Roma viram palco de uma perseguição: o marido corre atrás, a esposa corre na frente, e a filha fica no meio.

Quando Delia finalmente chega ao destino, a verdade é revelada: o que ela segura não é uma carta de amor, e sim um título de eleitor (tessera elettorale). Em 2 de junho de 1946, a Itália realiza o referendo sobre a república, e é também a primeira vez na história do país que as mulheres têm direito ao voto. Todos os preparativos misteriosos de Delia, como as saídas, o dinheiro guardado e as coisas escondidas, eram para esse dia.

Ivano chega atrás dela até a porta da seção eleitoral, mas não pode fazer nada. Diante da seção eleitoral, seus punhos perdem o efeito pela primeira vez. Delia entra e vota pela primeira vez na vida. O instante em que Marcella entrega o título de eleitor à mãe completa a passagem mais comovente do filme: a filha compreende a mãe, e a mãe protege a filha do seu jeito, não fugindo, e sim participando, lutando por um futuro em que uma mulher também possa ter voz.

Cena 4

No fim do filme, Delia sai da seção eleitoral. A vida não vira de cabeça para baixo: Ivano continua sendo o mesmo Ivano, e a casa continua sendo a mesma casa. Mas a imagem passa do preto e branco para a cor, só por alguns segundos, e então surge o título: C’è ancora domani, ainda temos o amanhã.

A mudança não acontece em um instante, mas o primeiro passo já foi dado. Como disse a própria diretora Cortellesi, depois desse despertar, mesmo que Delia volte à vida de antes, ela “já completou a transformação e se tornou uma pessoa nova”. Esse final sobrepõe, no mesmo instante exato, o despertar individual de uma mulher e a virada histórica de um país: o voto de Delia é, ao mesmo tempo, a primeira vez que ela fala como cidadã e a proteção mais profunda que ela dá ao futuro da filha.

Cena 5