No Fim do Túnel
Um engenheiro em cadeira de rodas trava um duelo mortal com os ladrões que cavam sob sua casa: a história completa de No Fim do Túnel, um suspense policial sobre redenção e recomeço
Título
No Fim do Túnel
Al final del túnel
Ano / Duração
2016 · 120 minutos
Gênero
Crime / Suspense
Direção
Rodrigo Grande
Roteiro
Rodrigo Grande
Avaliação
Elenco
Leonardo Sbaraglia, Pablo Echarri, Clara Lago, Federico Luppi, Uma Salduende
Um homem preso na escuridão
O filme abre com a câmera deslizando devagar de um salão amplo e iluminado até um porão na penumbra, onde uma figura solitária está sentada numa cadeira de rodas. No pátio, a carcaça queimada de um carro, com o para-brisa estilhaçado, e mato crescendo ao lado de um escorregador infantil enferrujado. Dentro da casa, as gavetas estão cheias de maços de cigarro, o cinzeiro transborda de bitucas e as estantes exibem fileiras de frascos de remédio.
O homem se chama Joaquín (Leonardo Sbaraglia). Um acidente de carro levou sua esposa e sua filha e deixou suas pernas para sempre sem sensibilidade. O lar que um dia foi feliz agora abriga só ele e um cão velho, de olhos apagados e já no fim da vida, que lhe faz companhia nessa casa enorme. Joaquín não larga o cigarro, tem o cabelo grisalho e desgrenhado, a barba por fazer, e lá fora é sempre uma noite de chuva fria.

Mas Joaquín não é um homem comum. Ele é um técnico de enorme experiência, craque em mecânica e eletrônica, e sua casa está repleta de centenas de livros e de todo tipo de ferramenta eletrônica. Mais importante ainda, tem uma audição várias vezes mais apurada que a de uma pessoa normal: consegue usar um estetoscópio para checar o funcionamento da cabeça de leitura de um HD. Sobre um móvel, troféus de competições de pombos-correio sugerem a vida movimentada que ele já levou. Agora, as notificações de cobrança do tribunal não param de chegar e a casa corre o risco de ir a leilão, mas ele se recusa a vendê-la, porque é seu último lar.
Uma visita inesperada
Numa noite de tempestade, uma jovem bonita chamada Berta (Clara Lago) chega com a filha de seis anos, Betty (Uma Salduende), à procura de hospedagem e aluga o quarto do andar de cima. Berta trabalha como dançarina numa casa noturna e tem um jeito aberto e caloroso. Betty é o oposto: não fala, tem medo de contato com homens e está sempre tentando se esconder.

A chegada da mãe e da filha dá cor de repente à vida até então sem brilho de Joaquín. Berta deixa a casa como nova, pendura luzes coloridas e lençóis limpos no terraço, prepara velas e vinho para comemorar o aniversário dele e traz música animada, flores e legumes e frutas frescos. Embora não fale, Betty começa a criar uma ligação surpreendente com o cão moribundo: olha fixamente para ele, o abraça, põe nele lenços coloridos e colares de contas e prende elásticos coloridos em suas patas. O cão, que estava prestes a ser sacrificado, volta a ficar de pé, cambaleante.
Mas, de madrugada, Betty caminha em silêncio, de roupa íntima, até a cama de Joaquín. Esse detalhe de partir o coração só é revelado mais tarde: desde os quatro anos, Betty é obrigada a participar dos chamados “jogos” com homens adultos, e acha que Joaquín fará o mesmo com ela. É a maneira infantil que ela tem de testar se esse homem também vai machucá-la.
O segredo no subsolo
Graças à audição fora do comum, Joaquín percebe algo estranho. O barulho que vem de baixo não é de ratos, e sim de alguém cavando. Depois de investigar a fundo, ele descobre uma verdade impressionante: uma quadrilha de ladrões está escavando um túnel sob sua casa, de olho no cofre de um banco próximo.

Joaquín logo põe em uso sua habilidade técnica: instala equipamentos de escuta e vigilância por toda a casa e começa a investigar em segredo os planos da quadrilha. À frente do grupo está um chefe brutal (Pablo Echarri) e, atrás dele, um velho que repassa informações de dentro (Federico Luppi). Conforme a vigilância avança, Joaquín descobre um fato que o abala ainda mais: Berta é, na verdade, a namorada do chefe da quadrilha, e sua chegada como inquilina não foi coincidência nenhuma, e sim uma fachada planejada.
A descoberta coloca Joaquín numa situação complicada. Ele já sente algo por Berta e tem muita pena da pequena Betty, vítima de abusos. E o verdadeiro responsável pelos abusos é justamente o chefe da quadrilha: o silêncio e o medo de Betty vêm do que esse monstro fez com ela.
Um jogo perigoso
Joaquín não chama a polícia. Em vez disso, põe em marcha um plano muito mais ousado. Decide usar seu conhecimento da estrutura da casa e sua sólida capacidade técnica não só para impedir o assalto, mas também para ficar com uma parte do butim. Ele é um homem encurralado pela vida, prestes a perder a casa, e logo abaixo de seus pés há uma fortuna prestes a cair em outras mãos.

Entre Joaquín e os ladrões começa um jogo de gato e rato. Graças aos equipamentos de escuta, ele acompanha cada movimento deles, enquanto tenta não se denunciar. Sua aparência inofensiva na cadeira de rodas se torna o melhor disfarce. Mas os ladrões também não são qualquer um: o chefe é desconfiado por natureza e violento, e qualquer detalhe fora do lugar pode custar a vida de Joaquín.
Ao mesmo tempo, Joaquín precisa lidar com o próprio conflito interior. Berta faz parte do plano, mas o carinho e o calor que demonstra por Joaquín não são totalmente fingidos. Ela também está atolada: dominada pela violência, com a filha machucada, sem liberdade real de escolha. Aos poucos, Joaquín entende que não precisa salvar só a si mesmo, mas também essa mãe e essa filha desamparadas.
A luz no fim do túnel
Quando chega o clímax, todos os fios se encontram: o assalto ao banco está prestes a acontecer, a verdadeira face do chefe da quadrilha é totalmente exposta e chega a hora de executar o contra-ataque que Joaquín planejou com tanto cuidado. Num confronto de tirar o fôlego, o velho aponta uma arma para Berta e Betty, e a situação fica por um fio. Graças ao conhecimento de cada canto da casa e à sua engenhosidade técnica, Joaquín vence os ladrões nesse duelo mortal.

O final do filme contrasta de forma refinada com o início. No começo, Joaquín veste preto, de costas curvadas pela derrota, com o cigarro quase no fim e os dedos tremendo de leve. No final, ele veste vermelho e a mão direita está calma e firme. Berta e Betty também usam vestidos longos vermelhos. Numa manhã agitada, os três se preparam para sair, e o cão velho espera tranquilo ao lado. Betty, com toda a naturalidade, estende a mãozinha e segura a de Joaquín.
Eles abrem a porta. Lá fora, o dia está de céu aberto.
No fim do túnel, há luz. Joaquín saiu do abismo que a perda da esposa e da filha deixou e, nessa arriscada partida no subsolo, encontrou sem procurar uma nova família. Aquele homem que vivia escondido num porão sem sol finalmente recebe a luz que era sua.