Restless
Quando o barulho vira arma e a insônia vira loucura: o enredo completo do thriller britânico Restless, sobre uma cuidadora dócil que vai ao extremo sob o tormento de um vizinho insuportável
Título
Restless
Ano / Duração
2024 · 89 minutos
Gênero
Drama / Suspense
Direção
Jed Hart
Roteiro
Jed Hart
Avaliação
Elenco
Lyndsey Marshal, Aston McAuley, Barry Ward, Kate Robbins, Denzel Baidoo
Prêmios
Festival de Cinema de Manchester: Melhor Longa-Metragem Britânico e Melhor Atriz
Restless é o primeiro longa-metragem do diretor britânico Jed Hart e conta uma história de vizinhos terríveis, insônia e perda gradual de controle. Com um orçamento mínimo, o filme cria uma sensação sufocante de opressão. Ganhou dois prêmios no Festival de Cinema de Manchester, Melhor Longa-Metragem Britânico e Melhor Atriz, e tem 94% de aprovação no Rotten Tomatoes. A trama é simples: uma mulher de meia-idade, tranquila, é levada ao colapso por um vizinho barulhento que acabou de se mudar. Mas, por trás dessa premissa simples, há um questionamento cruel sobre os limites do ser humano.
Ninho vazio e casa vazia
A abertura já cria suspense: Nicky, de pijama, dirige até um bosque e cava um buraco. Então a história volta uma semana no tempo.

Nicky é uma cuidadora de idosos de temperamento brando, que mora em um bairro tranquilo no norte da Inglaterra. O filho dela acabou de sair de casa para estudar na universidade, e os pais, que moravam havia décadas na casa ao lado, morreram um após o outro há pouco tempo. Nicky herdou essa casa, mas ainda não teve tempo de resolver o que fazer com ela. A solidão do ninho vazio, somada ao luto, deixa a vida dela muito frágil.
O vizinho infernal chega

Deano, um novo inquilino, se muda para a casa ao lado. Tem pouco mais de trinta anos, uma tatuagem chamativa no pescoço e um buldogue, e é um verdadeiro rei das festas. Na primeira noite, uma música eletrônica hardcore ensurdecedora atravessa a parede e dura até de madrugada.
Nicky toma coragem e bate à porta para conversar. Deano e os amigos parecem bastante simpáticos à primeira vista e prometem baixar o volume. Mas a promessa é quebrada quase na hora: na noite seguinte, a música está ainda mais alta. Os amigos de Deano, Clarkey, Marley e outros, entram e saem sem parar, e festas que duram a noite toda se tornam rotina.
Nicky tenta tudo o que uma pessoa comum poderia fazer: volta a bater à porta para conversar, liga para reclamar do barulho, procura o proprietário, pede ajuda à prefeitura. Mas todos esses caminhos normais dão em nada, porque ou demoram a responder, ou simplesmente ninguém dá importância. A lei e as instituições se mostram impotentes diante desse tipo de “assédio de baixa intensidade”.
O abismo da insônia

Várias noites seguidas sem dormir começam a corroer o estado mental de Nicky. Como cuidadora que precisa atender idosos durante o dia, a privação de sono tem consequências desastrosas: ela comete erros no trabalho, perde a concentração e fica extremamente instável emocionalmente.
Nicky começa a revidar de forma passivo-agressiva: faz barulho de propósito quando Deano não está em casa e mexe na lixeira dele. Mas essas pequenas armações, além de inúteis, enfurecem ainda mais o outro lado e escalam o conflito. Deano deixa de ser um simples vizinho barulhento e passa a ser uma presença ameaçadora: começa a encarar Nicky de propósito da porta, deixa o buldogue correr solto no jardim dela e bate na parede de madrugada para provocá-la.
À medida que a privação de sono se agrava, os pensamentos de Nicky ficam cada vez mais extremos. Ela já não se contenta com pequenas retaliações de olho por olho e começa a imaginar planos de vingança mais radicais e sombrios. Ao longo desse processo, o espectador percebe que Nicky não é uma vítima totalmente inocente: lá no fundo, ela parece guardar algo reprimido há muito tempo, e a chegada do vizinho insuportável foi só o pavio que acendeu tudo.
Rumo ao extremo

Uma semana de insônia faz Nicky desmoronar por completo. Os métodos de vingança dela passam de simples travessuras a atos realmente perigosos, e Deano também não se limita mais ao barulho: ele e os amigos começam a cometer atos de violência revoltantes. O conflito entre os dois lados deixa de ser uma briga de vizinhos e se transforma em uma guerra de vida ou morte.
O comportamento de Nicky fica cada vez mais imprevisível: de dia, ela cuida de idosos com dificuldade de locomoção no asilo; à noite, planeja como lidar com o valentão da casa ao lado. Esse contraste extremo dá calafrios: uma pessoa que parecia a menos capaz de machucar alguém pode liberar uma força inesperada quando é levada ao limite.
O final

A história volta por fim àquela imagem inquietante do começo: Nicky cavando um buraco no bosque. A narrativa de toda aquela semana se fecha aqui, e toda a tensão acumulada explode no final. Nicky resolve o seu “problema com o vizinho” de um jeito inesperado e conquista a paz que tanto desejava.
O final dá a Nicky calma e tranquilidade, mas o preço e a maneira como ela as obtém deixam uma sensação difícil de aceitar. O mais perturbador é que o desfecho sugere que essa paz pode ser frágil e passageira, tão instável quanto o estado mental de Nicky desde o início, sempre prestes a ruir de novo.
Restless usa uma premissa totalmente cotidiana, o barulho de um vizinho terrível, para explorar a fundo os limites da paciência, o colapso mental e a vingança violenta. A atuação de Lyndsey Marshal é o maior destaque do filme: ela constrói a transformação de Nicky, de mulher dócil a mulher fora de controle, com muitas camadas e de forma convincente. O ritmo é enxuto, e os 89 minutos nunca se arrastam, mas a segunda metade de fato se afasta do realismo, e o tratamento do final é bastante polêmico. Mesmo assim, é um filme que, depois de assistir, faz a gente pensar seriamente nos próprios vizinhos.